Havia medo em todos os músculos retesados. O olhar de cada uma delas dizia algo ao meu. Compaixão, implorava o primeiro. Ódio, estampava claramente o segundo (caso ela tivesse a chance, certamente não hesitaria em me matar. Mas esta chance jamais viria.) e o terceiro, apenas buscava, debilmente, entender o porquê daquilo estar acontecendo. Por que elas estavam no Café do Estudante há uma hora e agora estavam ali?
Calmamente, com a paciência de uma professora de alfabetização, expliquei como tudo iria ocorrer. Não haveria estupro, nem mutilação. Nada de agressões desnecessárias, nada de sangue. Sem sujeira, sem barulho, gritos. Nem mesmo um tapa seria dado. Retirei o “dadinho branco da sorte” do bolso. Como elas eram três, destinaria a cada uma dois lados do dado. Para a lourinha com cara de anjo e olhar de tigre faminto, os lados um e dois. Para a morena, os três e quatro. Os números restantes seriam da sardenta (mas seria desnecessário, então, rolar o dado).
Apenas sortearia um número. A dona do primeiro número iria antes. Menina de sorte, não passaria pela experiência de ver as amigas morrendo! Faria um novo sorteio e definiria a seqüência seguinte. Apenas iria chegar por trás de cada uma, segurar firme o queixo, com a mão direita, envolver a testa com o braço esquerdo e trazer a cabeça em sentido anti-horário e retornar, dando um giro único e preciso. Sem dor, sem sofrimento. Infelizmente, caberia às duas últimas presenciar esta cena.
Pensando melhor, não iria imputar-lhes este trauma. Não custava nada girar as cadeiras após o sorteio. Antes, jamais; não seria honesto. Cada uma tinha o direito de presenciar a lisura do jogo de dado. O que é de direito, é de direito. Prometi deixar que ficassem de costas uma para a outra. Não sou um cara perverso!
Coloquei-me no centro do triângulo formado pelas cadeiras. Fechei a mão direita, sacudi e soprei (nunca soube bem porque os jogadores de dado sopram a mão. Mas, se todos fazem...). Ao largar o dadinho no chão, ele deu algumas voltas sobre si mesmo (movimento de rotação, diria minha antiga professora de geografia) e parou exibindo a face quatro.
Lágrimas rolaram pelo rosto da morena e ganharam velocidade sobre a fita crepe que a amordaçava, pingando no volume arfante do seio esquerdo. Uma poética imagem unindo o coração e as lágrimas. Quantas vezes esta imagem esteve presente na minha vida. As coisas do coração sempre combinaram com as lágrimas. Naquele instante, a poesia tomava forma. Uma pena não poder fazer um registro. Nada de imagens ou sons. Nada de provas!
Novo rolar de dado. Meia dúzia! Todas as sardas pareceram ficar mais escuras no rosto lívido daquela adolescente. Quantos anos deveria ter? 15, 16, 17? Por que uma garota tão jovem se deixa levar para um local que não conhece, com alguém que não conhece, apenas para satisfazer o desejo de passar um dia diferente, com promessa de piscina aquecida, bebida, comida e algum presentinho no final de tudo? Ela não correria nunca mais o risco de se envolver com algum tarado, algum sádico. Nunca seria violentada, mutilada. Não precisaria ser velada e enterrada em um caixão lacrado, longe dos olhos dos que a amavam.
A loura, impassível no olhar, nos músculos imóveis da face, já sabia que seria a última. Olhei no fundo do seu olho e sorri. Como seria ser amado por alguém tão capaz de demonstrar seus sentimentos num simples mirar? Invejei o homem que poderia ser amado desta forma. Mas, era fato, ela não amaria mais ninguém. Seu último, profundo e sincero sentimento estava concentrado naquele olhar. Fantástico!
Girei as cadeiras, como prometido. Aproximei-me por trás da morena e preparei o golpe. O estalo foi quase imperceptível, porém eficiente. Posicionei a cabeça dela para trás, de modo que não escorresse nenhum filete de sangue pelo nariz ou boca. Limpo. Tudo seria limpo! A sardentinha tentou contrair os músculos do pescoço e isso fez com que eu quase derrubasse a cadeira. Seria horrível fazer barulho. Odeio barulho!
A lourinha continuava impassível. Mas havia algo que até então eu não tinha notado: o cheiro dela! Não reparei no perfume de nenhuma das outras, até então. Aquela cena já havia se repetido tantas vezes, em tantas cidades diferentes, em vários cantos do País e eu nunca havia dado atenção ao cheiro. Mas aquele perfume se entranhou pelas minhas narinas, impregnou meus pensamentos e despertou a memória adormecida: era Aquele Cheiro!
O perfume da única mulher que eu não concebia sequer pensar no nome, me invadia covardemente, vindo da dona daqueles olhos capazes de expressar sentimentos de uma forma absoluta. A vingança dela foi despertar-me a memória. Eu deveria saber que ela arranjaria uma forma de me machucar. Seus olhos haviam dito isto o tempo todo. E ela conseguiu. Mesmo ali, com a cabeça para trás, já sem dizer nada com o olhar, ela me dilacerava o peito com Aquele Cheiro.
Desamarrei as três, tirei as mordaças e coloquei-as lado a lado sobre a cama de casal. Carregar aquele corpo perfumado me fez um mal terrível. Precisava ir logo embora dali. Telefonei para a polícia, avisei onde encontrar os corpos e respondi da mesma forma de sempre àquela pergunta rotineira e imbecil que vinha do outro lado da linha: - Quem está falando? Eu, O Forasteiro!
Segui direto para o hotel, tomei um banho demorado, troquei de roupa, mas não podia trocar de alma, de memória. Aquele Cheiro não sairia tão fácil de mim. Na verdade, ele nunca saiu de mim, mas estava adormecido como um Vesúvio dentro das minhas entranhas e aquela carinha de anjo o despertou traiçoeiramente. Uma vingança cruel!
Desisti de assistir a apresentação de João Bosco no Teatro Guaíra. Passei a noite num bar do Largo da Ordem (acho que se chamava Liverpool, ou algo parecido. Mas, de que importa o nome?), tomando doses incontáveis de gim. Só vários copos com gosto de outro perfume foram capazes de me fazer esquecer o inesquecível. Voltei para o hotel e dormi até a uma da tarde. Paguei as diárias, peguei o carro no estacionamento e segui em direção à Régis Bittencourt. Próxima parada: São Paulo!
Calmamente, com a paciência de uma professora de alfabetização, expliquei como tudo iria ocorrer. Não haveria estupro, nem mutilação. Nada de agressões desnecessárias, nada de sangue. Sem sujeira, sem barulho, gritos. Nem mesmo um tapa seria dado. Retirei o “dadinho branco da sorte” do bolso. Como elas eram três, destinaria a cada uma dois lados do dado. Para a lourinha com cara de anjo e olhar de tigre faminto, os lados um e dois. Para a morena, os três e quatro. Os números restantes seriam da sardenta (mas seria desnecessário, então, rolar o dado).
Apenas sortearia um número. A dona do primeiro número iria antes. Menina de sorte, não passaria pela experiência de ver as amigas morrendo! Faria um novo sorteio e definiria a seqüência seguinte. Apenas iria chegar por trás de cada uma, segurar firme o queixo, com a mão direita, envolver a testa com o braço esquerdo e trazer a cabeça em sentido anti-horário e retornar, dando um giro único e preciso. Sem dor, sem sofrimento. Infelizmente, caberia às duas últimas presenciar esta cena.
Pensando melhor, não iria imputar-lhes este trauma. Não custava nada girar as cadeiras após o sorteio. Antes, jamais; não seria honesto. Cada uma tinha o direito de presenciar a lisura do jogo de dado. O que é de direito, é de direito. Prometi deixar que ficassem de costas uma para a outra. Não sou um cara perverso!
Coloquei-me no centro do triângulo formado pelas cadeiras. Fechei a mão direita, sacudi e soprei (nunca soube bem porque os jogadores de dado sopram a mão. Mas, se todos fazem...). Ao largar o dadinho no chão, ele deu algumas voltas sobre si mesmo (movimento de rotação, diria minha antiga professora de geografia) e parou exibindo a face quatro.
Lágrimas rolaram pelo rosto da morena e ganharam velocidade sobre a fita crepe que a amordaçava, pingando no volume arfante do seio esquerdo. Uma poética imagem unindo o coração e as lágrimas. Quantas vezes esta imagem esteve presente na minha vida. As coisas do coração sempre combinaram com as lágrimas. Naquele instante, a poesia tomava forma. Uma pena não poder fazer um registro. Nada de imagens ou sons. Nada de provas!
Novo rolar de dado. Meia dúzia! Todas as sardas pareceram ficar mais escuras no rosto lívido daquela adolescente. Quantos anos deveria ter? 15, 16, 17? Por que uma garota tão jovem se deixa levar para um local que não conhece, com alguém que não conhece, apenas para satisfazer o desejo de passar um dia diferente, com promessa de piscina aquecida, bebida, comida e algum presentinho no final de tudo? Ela não correria nunca mais o risco de se envolver com algum tarado, algum sádico. Nunca seria violentada, mutilada. Não precisaria ser velada e enterrada em um caixão lacrado, longe dos olhos dos que a amavam.
A loura, impassível no olhar, nos músculos imóveis da face, já sabia que seria a última. Olhei no fundo do seu olho e sorri. Como seria ser amado por alguém tão capaz de demonstrar seus sentimentos num simples mirar? Invejei o homem que poderia ser amado desta forma. Mas, era fato, ela não amaria mais ninguém. Seu último, profundo e sincero sentimento estava concentrado naquele olhar. Fantástico!
Girei as cadeiras, como prometido. Aproximei-me por trás da morena e preparei o golpe. O estalo foi quase imperceptível, porém eficiente. Posicionei a cabeça dela para trás, de modo que não escorresse nenhum filete de sangue pelo nariz ou boca. Limpo. Tudo seria limpo! A sardentinha tentou contrair os músculos do pescoço e isso fez com que eu quase derrubasse a cadeira. Seria horrível fazer barulho. Odeio barulho!
A lourinha continuava impassível. Mas havia algo que até então eu não tinha notado: o cheiro dela! Não reparei no perfume de nenhuma das outras, até então. Aquela cena já havia se repetido tantas vezes, em tantas cidades diferentes, em vários cantos do País e eu nunca havia dado atenção ao cheiro. Mas aquele perfume se entranhou pelas minhas narinas, impregnou meus pensamentos e despertou a memória adormecida: era Aquele Cheiro!
O perfume da única mulher que eu não concebia sequer pensar no nome, me invadia covardemente, vindo da dona daqueles olhos capazes de expressar sentimentos de uma forma absoluta. A vingança dela foi despertar-me a memória. Eu deveria saber que ela arranjaria uma forma de me machucar. Seus olhos haviam dito isto o tempo todo. E ela conseguiu. Mesmo ali, com a cabeça para trás, já sem dizer nada com o olhar, ela me dilacerava o peito com Aquele Cheiro.
Desamarrei as três, tirei as mordaças e coloquei-as lado a lado sobre a cama de casal. Carregar aquele corpo perfumado me fez um mal terrível. Precisava ir logo embora dali. Telefonei para a polícia, avisei onde encontrar os corpos e respondi da mesma forma de sempre àquela pergunta rotineira e imbecil que vinha do outro lado da linha: - Quem está falando? Eu, O Forasteiro!
Segui direto para o hotel, tomei um banho demorado, troquei de roupa, mas não podia trocar de alma, de memória. Aquele Cheiro não sairia tão fácil de mim. Na verdade, ele nunca saiu de mim, mas estava adormecido como um Vesúvio dentro das minhas entranhas e aquela carinha de anjo o despertou traiçoeiramente. Uma vingança cruel!
Desisti de assistir a apresentação de João Bosco no Teatro Guaíra. Passei a noite num bar do Largo da Ordem (acho que se chamava Liverpool, ou algo parecido. Mas, de que importa o nome?), tomando doses incontáveis de gim. Só vários copos com gosto de outro perfume foram capazes de me fazer esquecer o inesquecível. Voltei para o hotel e dormi até a uma da tarde. Paguei as diárias, peguei o carro no estacionamento e segui em direção à Régis Bittencourt. Próxima parada: São Paulo!
