terça-feira, 1 de abril de 2008

Capítulo 01 - AQUELE CHEIRO

Havia medo em todos os músculos retesados. O olhar de cada uma delas dizia algo ao meu. Compaixão, implorava o primeiro. Ódio, estampava claramente o segundo (caso ela tivesse a chance, certamente não hesitaria em me matar. Mas esta chance jamais viria.) e o terceiro, apenas buscava, debilmente, entender o porquê daquilo estar acontecendo. Por que elas estavam no Café do Estudante há uma hora e agora estavam ali?

Calmamente, com a paciência de uma professora de alfabetização, expliquei como tudo iria ocorrer. Não haveria estupro, nem mutilação. Nada de agressões desnecessárias, nada de sangue. Sem sujeira, sem barulho, gritos. Nem mesmo um tapa seria dado. Retirei o “dadinho branco da sorte” do bolso. Como elas eram três, destinaria a cada uma dois lados do dado. Para a lourinha com cara de anjo e olhar de tigre faminto, os lados um e dois. Para a morena, os três e quatro. Os números restantes seriam da sardenta (mas seria desnecessário, então, rolar o dado).

Apenas sortearia um número. A dona do primeiro número iria antes. Menina de sorte, não passaria pela experiência de ver as amigas morrendo! Faria um novo sorteio e definiria a seqüência seguinte. Apenas iria chegar por trás de cada uma, segurar firme o queixo, com a mão direita, envolver a testa com o braço esquerdo e trazer a cabeça em sentido anti-horário e retornar, dando um giro único e preciso. Sem dor, sem sofrimento. Infelizmente, caberia às duas últimas presenciar esta cena.

Pensando melhor, não iria imputar-lhes este trauma. Não custava nada girar as cadeiras após o sorteio. Antes, jamais; não seria honesto. Cada uma tinha o direito de presenciar a lisura do jogo de dado. O que é de direito, é de direito. Prometi deixar que ficassem de costas uma para a outra. Não sou um cara perverso!

Coloquei-me no centro do triângulo formado pelas cadeiras. Fechei a mão direita, sacudi e soprei (nunca soube bem porque os jogadores de dado sopram a mão. Mas, se todos fazem...). Ao largar o dadinho no chão, ele deu algumas voltas sobre si mesmo (movimento de rotação, diria minha antiga professora de geografia) e parou exibindo a face quatro.

Lágrimas rolaram pelo rosto da morena e ganharam velocidade sobre a fita crepe que a amordaçava, pingando no volume arfante do seio esquerdo. Uma poética imagem unindo o coração e as lágrimas. Quantas vezes esta imagem esteve presente na minha vida. As coisas do coração sempre combinaram com as lágrimas. Naquele instante, a poesia tomava forma. Uma pena não poder fazer um registro. Nada de imagens ou sons. Nada de provas!

Novo rolar de dado. Meia dúzia! Todas as sardas pareceram ficar mais escuras no rosto lívido daquela adolescente. Quantos anos deveria ter? 15, 16, 17? Por que uma garota tão jovem se deixa levar para um local que não conhece, com alguém que não conhece, apenas para satisfazer o desejo de passar um dia diferente, com promessa de piscina aquecida, bebida, comida e algum presentinho no final de tudo? Ela não correria nunca mais o risco de se envolver com algum tarado, algum sádico. Nunca seria violentada, mutilada. Não precisaria ser velada e enterrada em um caixão lacrado, longe dos olhos dos que a amavam.

A loura, impassível no olhar, nos músculos imóveis da face, já sabia que seria a última. Olhei no fundo do seu olho e sorri. Como seria ser amado por alguém tão capaz de demonstrar seus sentimentos num simples mirar? Invejei o homem que poderia ser amado desta forma. Mas, era fato, ela não amaria mais ninguém. Seu último, profundo e sincero sentimento estava concentrado naquele olhar. Fantástico!

Girei as cadeiras, como prometido. Aproximei-me por trás da morena e preparei o golpe. O estalo foi quase imperceptível, porém eficiente. Posicionei a cabeça dela para trás, de modo que não escorresse nenhum filete de sangue pelo nariz ou boca. Limpo. Tudo seria limpo! A sardentinha tentou contrair os músculos do pescoço e isso fez com que eu quase derrubasse a cadeira. Seria horrível fazer barulho. Odeio barulho!

A lourinha continuava impassível. Mas havia algo que até então eu não tinha notado: o cheiro dela! Não reparei no perfume de nenhuma das outras, até então. Aquela cena já havia se repetido tantas vezes, em tantas cidades diferentes, em vários cantos do País e eu nunca havia dado atenção ao cheiro. Mas aquele perfume se entranhou pelas minhas narinas, impregnou meus pensamentos e despertou a memória adormecida: era Aquele Cheiro!

O perfume da única mulher que eu não concebia sequer pensar no nome, me invadia covardemente, vindo da dona daqueles olhos capazes de expressar sentimentos de uma forma absoluta. A vingança dela foi despertar-me a memória. Eu deveria saber que ela arranjaria uma forma de me machucar. Seus olhos haviam dito isto o tempo todo. E ela conseguiu. Mesmo ali, com a cabeça para trás, já sem dizer nada com o olhar, ela me dilacerava o peito com Aquele Cheiro.

Desamarrei as três, tirei as mordaças e coloquei-as lado a lado sobre a cama de casal. Carregar aquele corpo perfumado me fez um mal terrível. Precisava ir logo embora dali. Telefonei para a polícia, avisei onde encontrar os corpos e respondi da mesma forma de sempre àquela pergunta rotineira e imbecil que vinha do outro lado da linha: - Quem está falando? Eu, O Forasteiro!

Segui direto para o hotel, tomei um banho demorado, troquei de roupa, mas não podia trocar de alma, de memória. Aquele Cheiro não sairia tão fácil de mim. Na verdade, ele nunca saiu de mim, mas estava adormecido como um Vesúvio dentro das minhas entranhas e aquela carinha de anjo o despertou traiçoeiramente. Uma vingança cruel!

Desisti de assistir a apresentação de João Bosco no Teatro Guaíra. Passei a noite num bar do Largo da Ordem (acho que se chamava Liverpool, ou algo parecido. Mas, de que importa o nome?), tomando doses incontáveis de gim. Só vários copos com gosto de outro perfume foram capazes de me fazer esquecer o inesquecível. Voltei para o hotel e dormi até a uma da tarde. Paguei as diárias, peguei o carro no estacionamento e segui em direção à Régis Bittencourt. Próxima parada: São Paulo!

Capítulo 02 - GAROA E ORÉGANO

Já era quase noite quando cheguei à capital paulista. Hospedei-me num velho hotel próximo à famosa esquina cantada por Caetano em Sampa. Como sempre, eu preferia não dar atenção a nomes de hotéis. Prefiro nomes de bares, mas, ainda assim, acabo esquecendo depois. Nomes de pessoas, ruas, hotéis, nada disso interessa. Nomes não interessam. Não gosto de lembrar nomes.

Apenas alguns nomes conseguem se manter vivos na minha mente. Nomes de cidades, de teatros, de cantores, de músicas. Mas mantém-se por reflexo involuntário. Não os decoro. Eles entram e ficam por algum motivo desconhecido. Apenas o nome Dela jamais será pronunciado novamente. Sequer será pensado. Odeio nomes!

Saí para comer alguma coisa. Comi dois cheeseburgers, ou dois xburgs, como estava escrito na parede da lanchonete, tomei um copo de 500 ml de suco de laranja e voltei para o hotel. Precisava descansar. O dia seguinte seria o início de uma nova busca. Não seria difícil. São Paulo era a cidade mais fácil de encontrar pessoas fáceis.

Apesar da temperatura estar baixa, deixei a janela aberta. Os cobertores seriam suficientes para equilibrar o clima na cama. O tempo frio é um bom aliado para minhas tarefas. Posso circular livremente calçando luvas, sem despertar a menor suspeita ou curiosidade. Nada de digitais! Apaguei o cigarro e o abajur sobre o velho criado mudo. Dormi o sono dos justos.

Às nove horas eu já estava circulando pela biblioteca do Sesc Pompéia. Folheei livros de pinturas, catálogos fotográficos e me deparei com um exemplar de A Grande Arte, de Rubem Fonseca. Um belo livro, um filme fraco. Não me servia de exemplo. Muito sangue. Tenho horror a derramamento de sangue. Um pescoço quebrado era perfeito! No blood, no trash, no track, no jail.

Lá pelas dez e meia, ela entrou. Olhar disperso, um caderno com a foto de um modelo de olhos azuis, com um enorme “lindo!” tatuado com esferográfica na bochecha esquerda. Andou diretamente até a prateleira das enciclopédias, pegou um dos volumes de capa vermelha e a minha memória estalou um “Barsa” na minha mente.

Não demorou nem cinco minutos com o livro aberto e sacou uma revista em quadrinhos de dentro do caderno. Apurei a visão e li o nome de Conan, o Bárbaro. Quando acabou de ler a revista, guardou-a, devolveu a Barsa à prateleira e saiu. Fui atrás, numa distancia segura. Segui-a até o Mc Donald's. Pediu um Big Mac, uma Coca Cola e um sorvete de baunilha. Antes que a mocinha do caixa registrasse, ela já havia notado que o dinheiro que possuía não daria para tudo e suspendeu o pedido do sorvete. Senti o hálito doce da sorte me sorrindo mais uma vez.

Pedi um sorvete de baunilha e sentei-me na mesa ao lado da dela. Resmunguei em volume suficiente para ser ouvido: devia ter comprado de chocolate. Baunilha sempre me dá azia. Virei-me e perguntei educadamente se poderia lhe oferecer o sorvete, pois pretendia comprar um de chocolate e não gostaria de jogar aquele fora. Ela abriu um sorriso e aceitou, agradecendo.

Voltei para a ala das mesas e perguntei se poderia dividir a mesma com ela. Novo sorriso. Conversamos sobre o clima, baunilha, chocolate e outras bobagens, até que achei que estava na hora de dar o bote. Com a desculpa de comprar um refrigerante, levantei e, proposital, porém discretamente, derrubei o caderno. Aparentei surpresa ao ver a revista e comentei: este cimério é superlegal, meu!

Depois do elogio a Conan, a conversa tomou novo rumo. Ela adoraria poder comprar os números atrasados para completar a coleção; mas, o maior desejo era ter os números especiais, importados, em inglês e coloridos. Fiquei de falar com um suposto amigo, dono de um sebo e dar uma resposta. Peguei o número do telefone de uma vizinha (“Não liga lá pra casa não. Meu pai e meu irmão são supermachistas comigo. Liga pra esse número. Pede pra me chamar”.) e disse que telefonaria assim que conseguisse algumas das revistas.

Em três dias de pesquisa em sebos, clubes de fanzines e HQs, bancas de revistas usadas e uma boa dica de um camelô na Sé, estava com o estoque das revistas que completariam a coleção, realizariam o desejo e comprovariam a minha teoria de que São Paulo era a cidade mais fácil de encontrar pessoas fáceis. Liguei para a tal vizinha. Tudo combinado para a próxima tarde, no parque do Ibirapuera. Bingo!

Parei o carro o mais próximo possível do local do encontro. Era importante não circular muito em público na companhia da “presa”. Esperei pouco mais de dez minutos e ela chegou. Eufórica para ver as revistas, quase não lembrou de se desculpar pelo atraso. Avisei que os pacotes estavam no carro e ela me seguiu como um filhote segue a mãe. Entramos. Eu, no meu posto de motorista. Ela, com um breve gesto meu, sentou-se no banco de trás, junto com os pacotes. “Posso abrir?”, perguntou ansiosa. São seus! Respondi com um sorriso pelo retrovisor.

Ela nem sugeriu questionar aonde íamos depois que eu dei a partida e segui. Tomei o rumo do Brás, onde havia estado dois dias antes. Ali, pessoas discretas alugavam quartos discretos por uma quantia módica. Uma vez adiantados os aluguéis de dois ou três meses, eram incapazes de lhe fazer perguntas. Não questionavam nem mesmo o fato de você usar uma barba horrorosa e um lenço ridículo na cabeça (acessórios adquiridos de última hora em uma lojinha de fantasias usadas, que encontrei durante a busca das revistas).

Ela também não questionou nada até o carro parar. Perguntou onde estávamos e eu disse que iríamos pegar as revistas coloridas. As importadas. Mais uma vez ela me seguiu sem pestanejar. Entramos no velho prédio. Só uma pessoa poderia nos ver entrar, mas não chegou a levantar os olhos do jornal para verificar quem chegava. Subimos até o último andar pelas escadas de madeira. Lá em cima, no final do corredor, ela se encontrou finalmente com as preciosas aventuras coloridas do cimério sanguinolento.

Quando ela acordou, tentou se movimentar, mas rapidamente percebeu a total impossibilidade de fazê-lo. Amarrar com fita crepe era sempre eficiente. Não folgava, não tinha pontas para serem puxadas e eram fáceis de se carregar e de jogar fora. Provavelmente, até mesmo o brutamontes chamado Conan, o Bárbaro, teria finais diferentes em algumas histórias, se houvesse fita crepe na sua época. Romper cordas era fácil para o herói, mas a fita crepe era envolvente, moldava-se aos músculos, impossibilitava contrações e dilatações capazes de pressioná-la a ponto de romper-se.

Ela chorava copiosamente. Devia estar se maldizendo por ter confiado em um estranho. Ou praguejando mentalmente contra mim. Talvez aqueles olhares furtivos para a porta fossem breves momentos de esperança. A esperança de que o brutamontes das suas fantasias entrasse espetacularmente e a salvasse. Mas ele era a fantasia e eu a realidade. Ele era o sonho. O pesadelo estava ali. Mas ninguém poderia questionar uma coisa: a coleção estava completa. Mais uma vez eu provei ser possível realizar uma tarefa, por mais difícil que pudesse parecer. Eu podia tudo!

Liguei para a polícia de um orelhão e me identifiquei. O Forasteiro já havia deixado sete corpos na capital paulista. Peguei o carro e fui para o hotel. Tomei um banho frio (ideal para enfrentar a garoa renitente que caia lá fora), arrumei-me e sai sem destino. Uma canção me tomou de súbito e comecei a cantar, vidros fechados e plenos pulmões:

Qui dove il mare luccica
E tira forte il vento
Sulla vecchia terraza
Davanti al golfo di Surriento
Un uomo abbraccia una ragazza
Dopo che aveva pianto
Poi si schiarisce la voce
E ricomincia il canto.
Te voglio bene assai
Ma tanto tanto bene assai...


Resolvi ir para o Bexiga. A face mais quente e mais italiana de São Paulo tinha tudo que eu precisava no momento: uma bela cantina, um vinho tinto de jarra e uma fumegante pizza de quatro queijos com bastante orégano.

Capítulo 03 - MEU PAPAGAIO

O vôo foi tranqüilo, sem turbulências nem chatos sentados ao lado. Fazia calor e o dia estava bastante claro. Aluguei um carro no aeroporto e segui direto para Atalaia. Comprei uma casa há pouco mais de um ano e quase não a usava. Resolvi usufruir um pouco do meu recanto sergipano. O caseiro me recebeu com deferência e me mostrou que estava cuidando bem da casa. Foi bom contratar um José. Sempre procuro contratar Josés. Como esquecer que alguém se chama Zé? Zé de quê, não importa. Zé é Zé.

Foram dias de muito Sol, cerveja e caranguejo. Tomei cuidado com o bronzeado. Inicialmente, só me expunha das seis às oito. Depois ampliei meu horário até as dez horas. Quando já estava com uma corzinha menos próxima do vermelho, com a ajuda de um FPS 30, passei a me aventurar em qualquer horário. Ao fim de três semanas já parecia ser um residente do local. Mudar a aparência é fundamental para minhas atividades.

A casa ficava um tanto isolada e isso fazia com eu tivesse pouco contato com as pessoas que circulavam no local. Eu freqüentava sempre a mesma barraca de praia, não me envolvia muito nos jogos de dominó, nem participava dos sambinhas que vez ou outra rolavam na barraca. Era preciso manter uma determinada distância. Mas não podia haver um isolamento total. Isso criaria um certo mistério e, conseqüentemente, acabaria por gerar curiosidade sobre a minha pessoa. Dosar as aparências era uma arte que havia se desenvolvido com o passar do tempo.

Após dois meses de descanso, já bastante bronzeado e com as energias revigoradas, estava preparado para retomar as minhas viagens pelo Brasil. Era hora de encontrar-me com as pessoas que brincavam com o desconhecido, que não se amavam a ponto de evitar se arriscar à toa. Minha mente e meu corpo estavam em perfeita harmonia. Correr pela areia logo de manhãzinha, nadar várias vezes por dia, dormir cedo e alimentar-me quase que exclusivamente de frutos do mar e frutas nativas davam-me uma sensação de bem-estar enorme. Até mesmo as cervejas, inicialmente abundantes, foram reduzidas a duas ou três antes das refeições. Sim, eu estava em ponto de bala!

Sai, como sempre, sem despedidas nem recomendações. Zé era um caseiro eficiente e dispensava preocupações. Devolvi o carro no aeroporto e segui para o Recife. Fui de táxi até Casa Amarela, onde tingi os cabelos de castanho claro, quase alourado, no salão de uma senhora que sempre acreditou que eu era um espanhol que morava em Olinda. Dali, voltei ao aeroporto e embarquei para Goiânia.

Capítulo 04 - PLANALTO CENTRAL

Quase cometi um erro grave ao me registrar no Augustos (único hotel que havia fixado seu nome em minha mente). Ao perguntar pela reserva, falei um nome que não era o que havia sido passado por telefone. Mas graças a um sujeito chato e mal educado que falava quase aos berros com o outro recepcionista, minha falha acabou por passar despercebida.

Minha raiva de nomes me causava problemas na hora de lembrar quem eu era em determinados momentos. Graças à ignorância, ineficiência e corruptibilidade barata de alguns funcionários de cartórios de registro pelo interior do País, era fácil ter várias identidades oficiais, com certidão de nascimento, carteiras de identidade e motorista, CPF e contas bancárias.

A primeira identidade foi conseguida em Ourinhos, no interior de São Paulo. A cidade mais parecida com um estacionamento de posto de gasolina que eu já conheci. Carros, ônibus e caminhões estacionados por todos os cantos, restaurantes, lanchonetes e dormitórios, sempre me deram a impressão de estar num grande pátio de parada.

Depois que a idéia me ocorreu, durante uma viagem entre Belo Horizonte e Foz do Iguaçu, parei em Ourinhos para pô-la em prática. Cheguei ao cartório logo no início do expediente e fui expor o meu problema ao funcionário. Estava fazendo uma pesquisa sobre mortalidade infantil e necessitava da ajuda dele para dar uma olhada nos livros de registro de óbitos entre 1960 e 1965. Uma gorjeta acelerou a sua vontade de colaborar com um conterrâneo há tanto tempo longe da sua terra natal.

Após localizar alguns registros de bebês do sexo masculino com morte anterior aos seis meses de vida e, portanto, sem memória para a população, escolhi um que havia nascido em 02/11/1962. Nascer no dia dos mortos, morrer e renascer anos depois no corpo de outra pessoa era um enredo que me agradava. E o nome, o maldito nome, não era dos mais complicados, nem comum o suficiente para não ser respeitado ao ser ouvido: Paulo Eduardo Ribeiro Krause.

De volta ao cartório com a desculpa de fazer uma última verificação nos livros, pedi ao funcionário para localizar a minha certidão de nascimento, pois era oportuno tirar uma nova via, uma vez que não sabia quando iria retornar à cidade e a minha certidão original já estava desgastada. Enquanto ele procurava o “meu” registro no livro, a morte de Paulo desaparecia para sempre, junto com a folha do livro de óbitos. Pronto. Paulo Krause estava ressuscitado.

Na volta de Foz do Iguaçu, Paulo tirou identidade e CPF em Curitiba, abriu uma conta corrente e fez exame de motorista em Cascavel, onde passou dias de regalo gastronômico na Cantina de Michelli (um nome tão óbvio que era impossível não lembrar!) - um restaurante familiar onde havia um maravilhoso rodízio de massas caseiras - enquanto esperava a sua habilitação. Eu já dirigi até Vitória do Espírito Santo como um novo homem. Repetir a operação em outros lugares tornou-se rotineiro. Hoje posso ser oito pessoas, além da que sempre fui.

No quarto do Augustus, separei os documentos corretos. Dentre eles estava a carteira de sócio do Jaó, um clube social da capital goiana muito interessante às minhas pesquisas. Nunca agiria lá dentro. Mas era um ótimo local para selecionar alvos. Nos clubes, as pessoas não são tão iguais quanto nas praias. As opções do restaurante e das lanchonetes, a diversidade de divertimentos oferecida, permitiam tirar um perfil dos interesses de cada pessoa. Depois, era só dar um jeito de encontrar a escolhida fora dali.

Goiânia era estratégica. Ficar ali me aproximava de Brasília, a cidade mais impessoal do Brasil. A Capital não tem sotaque, por ser uma mistura de muitos. Fica fácil, então, passar por qualquer coisa, inclusive por brasiliense (ou candango, como queiram). Lá, já tinha quase me aproximado do escore paulistano. O placar mostrava São Paulo 8 x 6 Brasília. Era uma cidade de gente quase tão fácil. O que aumentava o nível de dificuldade era a mania das garotas em andar em grupos muito grandes.

Mas, de qualquer forma, era sempre bom dar uma passadinha por lá antes de agir em Goiânia. Não precisava ser necessariamente no Plano Piloto. Podia ser em Guará, Gama, Taguatinga, Sobradinho ou qualquer cidade satélite. A diferença fundamental no Plano Piloto é o desinteresse por mais um rosto na multidão. As cidades satélites eram mais curiosas com os forasteiros. Desta vez foi na estação rodoferroviária, na minha chegada de um passeio por Taguatinga.

Ela brigava com um motorista de táxi que exorbitava no preço da corrida. Aproximei-me perguntando se o carro ficaria livre e ela me avisou para “não pegar corrida com este ladrão”. O motorista começou a xingá-la e eu tomei partido da garota. Cinco minutos depois estávamos conversando em um dos bancos do salão de embarque. Ela ia a Guará e retornava no dia seguinte. Anotou o telefone na tampa do maço do meu cigarro e despediu-se com um sorriso maroto.

Deixei para ligar no final da tarde. Como os vampiros, em alguns momentos prefiro agir após o pôr do Sol. Principalmente com o calor seco que fazia (fiquei imaginando se alguém poderia viver ali se não tivessem represado o Paranoá). Marquei de apanhá-la na rodoviária. Dali seguimos para a Churrascaria do Lago (outro nome mais do que óbvio). Local discreto e aconchegante. Conversamos sobre o ocorrido com o taxista e ela observou que naquele momento eu não estava de carro. Estava na revisão; apanhei no início da tarde, por isso não lhe liguei antes, respondi de pronto.

Depois fomos para um motel. Ela pediu para ir ao toalete e eu fiquei aguardando. Ela voltou enrolada na toalha do motel. Abriu-a e perguntou: Gosta? A cena me pegou de surpresa. Era inevitável e óbvia a resposta. Ela era realmente muito bonita. Mas eu não estava ali com aquela finalidade. Ofereci uma taça de vinho branco e aguardei o efeito. Ela acordou vestida e envolvida no casulo de fita crepe. Ouviu apalermada a explicação do que ia e porque ia acontecer. Quando fiz o primeiro movimento com a sua cabeça, ela ainda roçou o meu peito como um gato manhoso. Aquilo me comoveu e retribui o carinho com um beijo em sua cabeça antes de completar o gesto para o lado direito. Brasília 7. O placar estava se equilibrando.

Voltei para Goiânia e fiquei no quarto do hotel ouvindo o noticiário local. O descaso de sempre. Eu não gostava do fato. Desde o primeiro corpo encontrado no Rio de Janeiro que apenas um jornalista (e, ainda assim, num jornaleco de terceira) alardeou os crimes, e fez ligação entre eles. O restante da imprensa não dava a mínima atenção, nem ligava os fatos. Aquilo me soava mal. A polícia também não relacionava as coisas. Estavam incentivando um maníaco qualquer a cometer um crime e jogar a culpa no Forasteiro. Seria difícil ele executar o mesmo modus operandi, mas isso me obrigava a ficar atento aos noticiários. Não queria que ninguém confundisse o meu estilo com o método grosseiro de um assassino qualquer. Não sairia daquela cidade sem cumprir um novo desafio. A polícia goiana haveria de ser apresentada ao Forasteiro.

Sai do Augustos e fui para uma pensão na periferia da cidade. Cheguei de mochila nas costas, boné, jeans, t-shirt e tênis. Paguei quatro dias adiantados e fui para a rua. Peguei um ônibus até o centro e fiquei perambulando. A noite já caia quando entrei numa galeria comercial. Olhava desinteressadamente as vitrines das lojas que já cerravam as portas, quando vi uma garota de uns 19 anos se escondendo no provador de uma das lojas, aguardando o momento de sair sem ser vista.

Certifiquei-me que a galeria só possuía uma saída e fui para o outro lado da rua aguardar a jovem ladra. Esperei-a sair e fui seguindo o seu caminho até chegarmos numa transversal menos movimentada. Atravessei para a outra calçada, acelerei o passo e, repentinamente retornei à calçada onde ela estava. Fiquei frente a frente com ela, segurei-a pelo braço e disse: você está presa! O susto foi tão grande que ela quase caiu ali mesmo. Falei depressa: Não tente fugir. Finja que está andando normalmente comigo e será melhor para você.

Depois de algumas quadras ela me pediu que a deixasse ir, que devolveria o que tinha apanhado (um relógio para o namorado e um conjunto de brincos, colar e anel para ela mesma). Disse-lhe que tínhamos que conversar a respeito. Que não poderia levá-la até a viatura, pois o colega não seria tão compreensivo quanto eu. Mandei que só falasse quando eu mandasse e que não perguntasse nada. Parei um táxi e mandei o motorista seguir para a zona do baixo meretrício goiano. Ele, provavelmente, atentaria para um casal indo de táxi para um motel. Mas não perderia seu tempo com uma prostituta e seu cliente.

Paguei o táxi e descemos. Mandei que ela entrasse e pedisse um quarto ao porteiro do pardieiro. Cliente não pede quarto. Ele não prestaria atenção nela. Ela fez o que mandei e subimos para o quarto. Duas horas depois a viaturas da polícia goiana estavam revirando cada puteiro da região em busca do Forasteiro. A mochila vazia ficou na pensão. Peguei minha bagagem no guarda volumes do aeroporto e embarquei para Salvador. O Jaó ficaria para outra ocasião.

Capítulo 05 - SAUDADE E RANCOR

Estava de volta ao berço de tudo. Ao meu ninho. Ali eu voltava a ser eu mesmo. Não poderia ser um forasteiro em minha própria cidade. Ainda no aeroporto, raspei barba e bigode. Passei, eu mesmo, uma “máquina 3” no cabelo e usei uma dessas tinturas fedorentas para escurecer, o que restou, de uma cor bem próxima da natural. Depois, sair pelo túnel de bambus do aeroporto Dois de Julho, passar pelo aviãozinho da Senta a Pua. Tudo me fazia sentir de volta, em casa. Minha velha cidade de São Salvador da Bahia me alentava a saudade, mas me trazia recordações dolorosas. O rancor que estas lembranças faziam brotar em meu peito, causava-me muito mal. E o alguém que devia pagar por isso estava em algum lugar do passado!

Peguei um táxi e segui para casa. Minha casa! Tudo que estava registrado no meu verdadeiro nome residia aqui. O pequeno apartamento duplex em Vilas do Atlântico, o quarto e sala no Farol da Barra e um Gol 1.6 branco, com pouco mais de um ano de uso. Nada deixava transparecer a possibilidade de gastar tanto quanto eu gastava nas minhas viagens. O restante estava dividido entre os meus outros eus. Nenhum era rico, nem pobre. A arte do equilíbrio das aparências.

Passei por Vilas apenas para pegar o carro na garagem. Retirei a lona de proteção. Estava lavado e com o tanque cheio. Já estava saindo, quando o Zé soteropolitano chegou esbaforido. Cumprimentei-o, disse que depois falava com ele e segui. Avenida Paralela ou Orla? Orla! Apesar do trecho de São Cristóvão sempre me irritar, a partir da Sereia tudo era festa para os olhos. Principalmente se eu concentrasse minha atenção para o lado esquerdo, o lado do mar.

Antes de ir para o apartamento, parei no velho Oceania e pedi um chope e uma porção de queijo com molho inglês. Após a quarta tulipa, paguei a conta e fui assistir ao pôr do Sol da janela do apartamento. Sétimo andar, de frente para o mar da Baía de Todos os Santos. Esta terra tem tudo para fazer alguém feliz. Mas Bahia é feminino. É mulher. Mulher tem tudo para fazer alguém feliz. Não faz porque não quer! De que adianta tanta beleza, tanto esplendor? Porra!

Aquela expressão me fez estar definitivamente em casa. Porra! Em nenhum lugar esta palavra tem tantos usos como na Bahia. Uma topada sugere uma “porra!” que brota odiosa, lá das entranhas. Um esquecimento cria uma “porra!” com tapa na testa. Uma surpresa, uma coisa bonita: uma “porra!” com levantar de sobrancelhas. Uma bela bunda, sustentada por colunas torneadas? Ah! Aí, inevitavelmente, surgirá diversa “porra!”, algumas de boca aberta, outras com o lábio inferior projetado para frente (uma “porra!” de beiço!). E por aí vai.

Fiquei um tempo olhando o Sol desaparecer no mar espumante, como um Cebion de laranja efervescendo num imenso copo azul. Logo depois surgiria aquela imensa aspirina chamada Lua cheia, curando as dores do dia, aliviando a vida para curtir a noite soteropolitana. Era sexta-feira! Um cochilo até as oito. Um banho e rua. Primeiro o Egus, na Federação. Cervejinha, papo furado, carne do sol a boa música de Dubinha. Depois, o 68, no Rio Vermelho: esquerda festiva e jogo de dardos. Uma passadinha no Campo Grande. Quintal do Raso da Catarina (“o último reduto de Lampião”, dizia o cardápio preso a uma tábua de carne). Um “Príncipe Maluco”, uma carne de fumeiro e alguns choppinhos no capricho. Um papo com Quitério e Damiana, uma piadinha aqui e acolá. Seguir caminho até a Barra. Ouvir Saul Barbosa no Club 45 e terminar a noite no Berro D'Água. Viver a década de 80 em Salvador era uma delícia.

Agora eu já tinha sido visto. Estava de volta! Ninguém está em lugar algum se não for visto. Eu só sou visto onde quero. Onde preciso. Com certeza o telefone iria tocar na manhã seguinte. As notícias corriam fáceis pela província iluminada com vapor de mercúrio. Eu recomeçaria a história da minha vida. Viveria-a intensamente até o próximo hiato. Até que o anjo do meu ombro direito vacilasse e o diabinho pousado no esquerdo me levasse de volta ao aeroporto.

Como previsto, o telefone chamou às dez. Um churrasco no Caminho das Árvores. Uma fauna conhecida, muita birita, muito tudo. Cada um na sua. Um violão rodava de mão em mão, bem e mal tocado. Era bom estar de volta a essa vidinha sem planejamento, sem compromissos, sem suspeitas. Conheci algumas pessoas interessantes. Dentre elas, uma baixinha de Alagoinhas. Conversamos animadamente e nos despedimos sem trocar telefones ou endereços.

No fim do dia, comendo pititinga na Ribeira com alguns sobreviventes do churrasco, perguntei quem era aquele teco-teco (sim, porque avião pequeno é teco-teco!). Descobri que estava na casa de uma prima na Pituba. O telefone da tal prima, ninguém ali sabia. Alguém saberia. Eu iria descobrir, mais cedo ou mais tarde. Foi mais tarde! Quando liguei, cinco dias depois, ela já tinha voltado para casa. Decidi que precisava ir a Alagoinhas. Conhecia algumas pessoas por lá e poderia aparecer sem dar muita bandeira.

Ao chegar em Alagoinhas fui direto para a casa de um amigo. Ficava em Alagoinhas Velha (ou Old Alagodé, como costumávamos brincar). Fui recebido com um entusiasmo gratificante. Ele morava com os irmãos. Os pais ficavam numa fazendinha em Pedrão, um município próximo. Quis saber por onde eu andei, o que fiz, como eu estava... Respondi com evasivas convincentes e mudei a direção das perguntas. Ele respondia com dedicação. Gostava de falar dele e da família. Isso, eu nunca tive: prazer em falar e, principalmente, família.

Órfão, desde os sete meses de vida, fui criado entre as casas dos meus avós e tios. Revezavam o pacotinho chorão de acordo com as necessidades, conveniências e paciência de cada um. Não criei verdadeiro apego a nenhum deles e a recíproca era verdadeira. Isso acabou sendo ótimo para todos, pois ao completar 18 anos e assumir a bela herança deixada por meus pais, caí fora do convívio de todos eles e fui tocar a minha vida, do meu jeito. Acreditava totalmente no ditado popular que dizia que “parente é que nem dente: quanto mais afastado, melhor. Não junta sujeira!”.

Conversamos animadamente até a hora do jantar. Depois disso fomos dar uma voltinha pela cidade. Ele não conhecia a garota que eu estava procurando, mas afirmou que não seria difícil localizá-la. O bar do momento era o Netuno, entre a “New” e a “Old Alagodé”. Se ela não aparecesse, apareceria alguém que a conhecia. Descemos até a pracinha onde a turma jovem se reunia antes de decidir para onde ia. Tomamos algumas latinhas de cerveja no trailer de cachorro quente e fomos para o Netuno.

Já estava quase desistindo, quando ela apareceu. Não disfarcei a alegria em revê-la. Nem pestanejei ao responder o que eu estava fazendo em Alagoinhas. Vim lhe ver! Respondi com um sorriso. Sempre confiei no meu sorriso. Ele sempre parecia sincero, mesmo quando guardava um leve ar de safadeza, cinismo ou ironia nos cantos da boca. Ela retribuiu ao meu esforço em revê-la com um olhar preocupado e fugidio. Logo o motivo daquela estranha situação entrou no bar.

Ela me apresentou o noivo com uma seriedade desconcertante. Apertei a mão do sujeito com firmeza, mas sem apertar, apesar de estar com vontade de esganar seu pescoço até que sua língua saltasse pela boca, tal e qual a água jorrava pela figura de Netuno que havia na parede da entrada. Por que diabo ela não falou no noivo quando conversamos em Salvador? Paguei a conta, deixei o meu amigo em casa e fui embora daquela cidade. No entroncamento com a BR-324, resolvi tomar o rumo de Feira de Santana.

Cheguei em Feira ainda a tempo de curtir o resto da noite. Apesar de não gostar do tipo de diversão da turma local, do tipo pegas, cavalos de pau, etc., apreciava aqueles churrascos de beira de calçada, com cervejas geladas e papo informal. Fiquei nessa até o dia amanhecer. Fui para um hotelzinho chinfrim que fica em frente ao Feira Tênis Clube. Dormi em um cubículo que se resumia a uma cama de alvenaria, uma cadeira de madeira e um ventilador, com um banheiro contíguo onde o espaço era tão reduzido que a privada ficava quase embaixo do chuveiro.

Acordei lá pelas onze e voltei para Salvador. Apesar de ter sido uma noitada divertida, o olhar de Netuno não me saia da mente. Eu já havia visto aquele olhar de pedra, gelado e impassível, só não consegui lembrar aonde. Cheguei em casa e fui direto à geladeira. Havia cerveja suficiente para encarar um domingo solitário. Escolhi um disco na estante (Olhai os lírios do campo) e coloquei...

Se voltar, não faça espanto,
Cuide apenas de você;
Dê um jeito nessa casa,
Ela é nada sem você.
Regue as plantas na varanda;
Elas devem lhe dizer
Que eu morri todos os anos,
Quando esperei você.
Se voltar, não me censure,
Eu não pude suportar;
Nada entendo de abandono,
Só de amor e de esperar.
Olhe bem pelas vidraças,
Elas devem lhe mostrar
Os caminhos do horizonte
Onde eu fui lhe procurar.
Não repare na desordem
Dessa casa, quando entrar;
Ela diz tudo que eu sinto
De tanto lhe esperar.


Abandono! A canção de Ivor Lancellotti era absurdamente capaz de me emocionar às lágrimas. Mais uma latinha. Mais um cigarro. Mais uma faixa. Mais uma música. “Agora eu caminho diante da vida sem medo...”, dizia Joanna. Sem medo. Isso fazia parte do meu lema de sobrevivência: ignorar o medo. Ter cautela, não me expor ao perigo desnecessário, mas, jamais, nem por um só instante, dar uma brecha ao medo. No dreams, no ilusions, no fear, no limits. Assim se resumia a minha filosofia de vida.

Acordei com o apartamento às escuras. A noite caiu enquanto eu dormia no sofá, cercado de latas vazias. Acendi a luz, joguei as latas no lixo, esvaziei os cinzeiros e fui tomar um banho frio. Enquanto a água me reconfortava os músculos, pensei naquela situação ridícula no Netuno. Ri às gargalhadas da minha atitude adolescente de viajar quilômetros atrás de alguém que eu mal conhecia. Mas eu não perdoava as diferentes atitudes. Porque ela era uma longe do noivo e outra quando ele estava perto? Só uma palavra me veio: Corno!

Já de pronto para sair, resolvi ir para Vilas. Passei a noite revisando as viagens que tinha acabado de fazer. Não havia cometido erro algum. Usei as identidades certas nos locais certos. Fui visto apenas o necessário e apenas duas coisas continuavam me incomodando: a falta de raciocínio da polícia sobre os crimes (27 corpos num mesmo modus operandi e tudo era tratado com uma dedicação muito aquém da esperada) e aquele repórter que insistia em pregar no deserto. E como muito silêncio é tão perigoso quanto muito barulho, decidi dar um tempo às andanças do Forasteiro e circular com a minha verdadeira identidade.

Na segunda-feira eu já estava embarcando para o Rio de Janeiro. Meu instinto me dizia que era por ali que eu começaria a desvendar o mistério através daquele repórter que se dedicava a investigar o Forasteiro, mas que era ignorado pelas autoridades, por não trabalhar em nenhum jornal considerado “grande” e que sempre entrevistava a mesma pessoa. Algo me indicava o caminho do Rio e “algo” jamais mentia. Quando “algo” falava, era melhor obedecer. Sempre!

Capítulo 06 - RIO BABILÔNIA

A minha trajetória na Cidade Maravilhosa já estava traçada. Depois de me hospedar em Copacabana, fui direto para a Biblioteca Nacional. Precisava pesquisar os jornais da época das primeiras aparições do Forasteiro. Eu não guardava recortes. Eu não guardava nada das minhas viagens. Canhotos de passagens aéreas, tickets de estacionamento, fósforos de hotéis e restaurantes, tudo virava cinzas. O Forasteiro era uma espécie de fantasma, um ser invisível e que, conseqüentemente, não deixava rastros.

Uma vez de posse das informações necessárias, precisava circular nos lugares certos. Algo, mais uma vez me indicava o caminho. Precisava dar um jeito de me aproximar do irmão de uma das garotas a conhecer o Forasteiro. As declarações dele para um jornaleco indicavam estar ali a chave para o mistério que me aguçava a curiosidade e despertava o meu senso de sobrevivência: era assinada pelo mesmo repórter bisbilhoteiro que já fizera alusão a um serial killer, que cobrara da polícia mais eficiência e lucidez em um outro jornalzinho de terceira. Como não acredito em acaso ou coincidências...

A sorte havia me sorrido mais uma vez e o nome de família da garota era um tanto incomum, o que me levou a apenas dois nomes na lista telefônica. O único problema era a defasagem de tempo, pois o Rio estava há um bom período sem renovar o catálogo de telefones. O primeiro número ligado foi atendido em uma butique no Leme. Ninguém sabia informar nada sobre o antigo proprietário.

Mas a segunda ligação não falhou. Perguntei se era da residência do rapaz e a resposta foi afirmativa. Apresentei-me como sendo um ex-colega de escola e confirmei o endereço do catálogo. Facilmente as pessoas se colocavam em risco. Um desconhecido é sempre um desconhecido. E o desconhecido é potencialmente perigoso em qualquer situação. É preciso ser cuidadoso o tempo todo. Eu sabia bem disso.

Escolhi um botequim, quase em frente ao prédio, como posto de observação. Uma rua de prédios antigos, incrustada no bairro de Botafogo. Um ambiente amigável, onde moradores e fregueses habituais conviviam harmoniosamente com as pessoas que eventualmente entravam para aliviar o calor com um choppinho ou um refrigerante. Lembrava-me o Colon, no Forte de São Pedro, em Salvador. A maior diferença ficava por conta das quatro mesas na calçada.
A escolha não podia ter sido mais acertada. O rapaz era habitué no local. Antes de ir para casa, após o trabalho, ele, diariamente, passava para tomar caipirinha e comer calabresa frita. Descobri isso sem precisar tomar informações. Logo no primeiro dia dei de cara com ele. Em dois anos ele parecia ter envelhecido dez. As feições ainda eram as mesmas da foto do jornal, mas as olheiras, as rugas e os vários fios brancos que, precocemente, invadiam a cabeleira estilo “menino do Rio”.

Aproximei-me e perguntei se a calabresa estava boa, pois pretendia pedir algo para tira-gosto. Ele, então, virou-se para o dono do bar e gritou: “Portuga, o freguês quer saber se a calabresa tá boa!”. O simpático senhor de seus setenta e poucos anos, olhou-me sorridente e garantiu que eu não pagaria os dois chopes tomados, caso não aprovasse a qualidade da comida preparada no local. “Pode pedir o que quiser. Calabresa, torresmo, coração de galinha, moela... Qualquer coisa!” e, antes mesmo que eu pudesse dizer algo, me entregou duas rodelas da lingüiça enfiadas num palito.

Após esse quebra-gelo, o papo rolou solto e o rapaz ultrapassou em muito as duas doses costumeiras. Criou uma intimidade de velho conhecido. Parecia ser meu amigo desde a infância. Contamos velhas piadas e rimos como se fossem umas grandes novidades, desafinamos em sambinhas e marchas-rancho acompanhadas de caixas de fósforo, paliteiros e porta-guardanapos. Nos despedimos lá pelas onze, marcando outro papo para o dia seguinte. Seria sexta-feira. O tempo de ficar na farra se indeterminava às vésperas de sábado. As caipirinhas rolariam em maior quantidade e seria mais fácil fazer as perguntas que me interessavam.

“Thanks Lord! Today is Friday”! Ficamos pouco tempo no Portuga. Resolvemos ir para o baixo Leblon. Era o local da moda. Uma fauna variada e a artistagem circulando desenvolta entre os mortais comuns. Não fazia o meu gênero, mas eu não estava ali para me divertir. Meu objetivo era deixar o rapaz o mais à vontade possível. Obter a confiança total, através da camaradagem ou da birita. Pouco importava. Contanto que ele me fornecesse algumas respostas fundamentais. Eu já estava de saco cheio daquele mistério. Detestava estar atrelado a qualquer coisa que fugisse ao meu controle. Ou eu conseguia dominá-la, ou a eliminava e desobstruía o meu caminho!

A madrugada corria solta. Em uma mesa próxima, Cazuza, Maria Zilda e uma turma animada, gargalhavam como se não fosse mais permitido sorrir no dia seguinte. Era engraçado ver aquelas figuras famosas agindo como se incorporassem personagens de histórias inverossímeis. Alguns deles eram mais comportados nas telas e nos palcos. Parecia uma gincana surreal, onde as tarefas a serem cumpridas se sucediam num turbilhão digno dos devaneios felinianos (esta associação, mais tarde, me seria útil).

Vamos comer pizza com as putas de Copacabana, gritou alguém do grupo onde estávamos. Logo nos vimos todos, espalhados por três ou quatro carros lotados a caminho do calçadão de Copa. Descemos no Meia Pataca, um bar/restaurante, com mesas no calçadão, que estava cheio de mulheres em busca de um freguês. Convidamos algumas para sentar conosco e tomar chope, comer pizza, jogar conversa fora. Ninguém ali era um freguês em potencial. A companhia das prostitutas era apenas mais um ingrediente no caldeirão de porra-louquice da madrugada.

Estava tudo muito engraçado, muito interessante, mas o meu objetivo se esvaía por entre meus dedos. Precisava dar um jeito de conversar mais a sério e não conseguia um segundo a sós com a minha fonte de informações. Foi então que me veio a idéia: dividiríamos o grupo em duplas. Cada dupla bolaria uma tarefa a ser sorteada para uma outra dupla. Depois que todos estivessem com suas tarefas, sairíamos para cumpri-las. Fiz dupla, obviamente, com o meu amigo de Botafogo.

Marcamos encontro ao meio dia, na barraca do Pepê. Tínhamos seis horas para completar a gincana. As duplas que não conseguissem cumprir suas tarefas ficariam encarregadas de pagar a farra da noite de Sábado. A nossa tarefa, com um gravador, foi entrevistar cinco pessoas diferentes, de cinco nacionalidades diferentes, em cinco idiomas diferentes, no alto do Corcovado. Teríamos que levar fotos das pessoas acompanhadas de um de nós dois. Sugeri que ele posasse e eu fotografasse, pois ele poderia guardar como lembrança. Ele tentou argumentar alguma coisa, porém o estado etílico não lhe permitiu prosseguir. Abanou com as mãos e disse um “tá certo!” trôpego.

Ao voltar do Cristo Redentor, ele já estava menos afeito aos efeitos do álcool, mas com muito sono. Lá no alto do morro, aproveitei para comentar que era difícil crer que uma paisagem tão bela pudesse abrigar tanta violência, tantos crimes. O assunto mexeu fundo com o rapaz, que passou a fazer um discurso inflamado a favor do extermínio puro e simples da bandidagem. Esquadrão da morte, “polícia mineira”, vingança pessoal, tudo cabia no seu raciocínio. A transformação foi brutal.

Eu havia assumido a direção do carro e aproveitei para fazer o caminho de volta passando pela rua onde a irmã dele tinha sido achada pela polícia após o encontro com o Forasteiro. Apesar de estar quase cochilando no banco do carona, ele gritou, imperativo, que não passasse por ali. Aquela rua estava descartada do mapa do Rio de Janeiro até que o assassino da sua irmã estivesse morto. E, sem que eu perguntasse nada, começou a contar o crime. Só faltava agora saber como ele tinha tanta certeza de que o autor do assassinato iria morrer.

Quando chegamos à praia do Pepino, quase toda a turma já estava lá. Depois que todos chegaram, fomos julgar o cumprimento das tarefas. Apenas uma dupla não conseguiu (mais por falta de disposição que pela dificuldade da missão) efetuar o que havia sido combinado. Propuseram, em substituição à conta da noite, que fossemos todos para a casa de um deles em Mangaratiba. Proposta aceita, fomos providenciar tomar banho, trocar de roupa e arrumar as bagagens para o final de semana. Dois dias inteiros para matar a minha curiosidade. Perfeito! A sorte não me abandonava. Eu continuava um iluminado!

Capítulo 07 - PARAÍSO E INFERNO

Chegamos a Mangaratiba caindo pelas tabelas. Todos precisavam dormir urgentemente. Definidos os quartos, fomos em busca do merecido descanso. Fiquei, com o meu informante involuntário, em um pequeno apartamento sobre a garagem. O novo amigo não escaparia de soltar o verbo comigo. Com a precisão do bisturi de um Ivo Pitangui (cuja ilha ficava bem perto, naquelas águas transparentemente azuis), eu iria fazer pequenas aberturas na sua alma, até que a pressão das suas angústias transformasse tudo num buraco único, expelindo tudo que eu precisava saber. Aprendi que ele falava em um turbilhão incontrolável, quando a emoção subjugava a razão.

Acordamos ao pôr do Sol, comemos qualquer bobagem e fomos para um barzinho à beira-mar. Tudo estava calmo até que uma garota na mesa ao lado iniciou uma disputa de “porradinha” com as amigas. Uma dose de vodka, meio copo de soda limonada, tampar a boca do copo com a palma de uma das mãos, bater várias vezes contra a coxa e beber, de vez, quase em um gole único, aquela bomba espumante. Entramos na brincadeira. Mais um grande porre mostrava o seu início. A equação era perfeita para as minhas pretensões: descontração + bebedeira = língua solta. A sorte daquelas garotas era que quem estava em Mangaratiba era eu e não o Forasteiro. Ele nunca havia estado ali. Quem sabe em outra ocasião?

Ficamos no bar até por volta das 20:00h. A turma, aumentada pelas garotas da mesa ao lado, voltou para a casa onde estávamos hospedados. Alguns formaram pares e sumiram pelos quartos, varandas e jardins. Fiquei no bar da piscina tomando uma água de coco e comendo caqui, recarregando as baterias, quando duas das garotas incorporadas ao grupo se aproximaram. Falaram que eram gaúchas e estavam viajando pelo Brasil, de mochila nas costas e se hospedando em albergues ou em casas de pessoas amigas.

Já tinham passado por Santa Catarina, Paraná e São Paulo, onde demoraram mais do que pretendiam. Tinham a intenção de ir até o Ceará, mas estavam com um problema fundamental: o cálculo que fizeram foi equivocado. Elas gastavam muito. A mania de freqüentar certas rodas, de hábitos caros, tentando demonstrar ser de uma camada social da qual não tinham cacife para sustentar as despesas, faria com que elas retornassem dali mesmo para Porto Alegre, abortando o restante da aventura. Algo me dizia que esta situação poderia ser-me extremamente útil. Isso sem contar as possibilidades de também poder proporcionar momentos agradáveis.

Seguindo, como sempre, a máxima pessoal de que “algo não mente jamais”, resolvi investir de imediato nas duas viajantes sem grana. Perguntei se elas aceitariam que eu financiasse o restante da viagem. Um misto de incredulidade, desconfiança e euforia brotou daqueles dois pares de olhos verdes. “Por quê”, perguntou-me a morena de cabelos negros e cacheados. Respondi com o máximo de impassividade nas expressões e com o olhar fixo no dela: Porque eu posso e porque me deu vontade! A lourinha deu uma risadinha discreta, demonstrando estar ansiosa para aceitar a proposta. Era através dela que a amiga iria aceitar também.

Mandei que pensassem com calma. Eu bancaria todas as despesas. Abriríamos uma conta conjunta em nome das duas, na qual eu depositaria a grana necessária para a aventura até o Ceará. Não precisavam me apresentar notas e, com certeza absoluta, os depósitos efetuados superariam a capacidade inconseqüente de gasto das duas. E, se mesmo assim, elas conseguissem torrar todo o dinheiro, eu não as deixaria na mão. Aguardaria a resposta para a manhã seguinte.

Como o meu parceiro estava acompanhado, o apartamento sobre a garagem não estaria disponível. Resolvi aproveitar a deixa e perguntar se haveria possibilidade de vaga no local onde elas estavam hospedadas. Elas afirmaram que sim, pois a pensão estava quase vazia. Deixei um bilhete avisando o meu paradeiro e seguimos juntos para uma pensão pequena, porém bem arrumadinha, em uma das ruas internas de Mangaratiba, um bom pedaço afastada do mar. Se não estivéssemos de carro, seria uma boa caminhada.

Escolhi um quarto no final do corredor, apesar de quase todo o andar estar desocupado. Elas estavam no pavimento térreo e eu fique no primeiro piso. A estratégia estava armada. O coração humano não falha quando as suas intenções são denunciadas pelos olhos. Era somente aguardar. E o tempo de espera não foi nem tão longo. Pouco mais de meia-noite e pancadinhas discretas na porta do quarto confirmaram o óbvio. Abri, fingindo surpresa, e deixei a lourinha entrar. A parte agradável começava a tomar forma. Faltava a mais importante: A útil!

O resto da noite transcorreu de uma forma extremamente satisfatória. A lourinha desconhecia o significado das palavras limite, pudor e preconceito. Felizmente eu, apesar das noitadas recentes, estava ainda no melhor da minha forma, graças ao período de repouso em Atalaia. A intimidade da cama permitiu uma conversa franca nos momentos que sucederam a maratona sexual. E dentre os “segredos” revelados durante o papo, estava a fantasia dela em relação à amiga. “Nunca tive interesse por mulher, mas desde que a conheci na escola que fico imaginando como seria estar com ela. Não sei porque, mas há algo diferente nela, que me atrai, que me dá uma vontade maluca de acariciar, beijar, abraçar... tudo! Já andamos juntas há mais de oito anos e eu nunca tive coragem de tentar, de falar... fico só imaginando...”.

Aproveitei a deixa para pela primeira vez contar a alguém um desejo oculto, que eu “jamais consegui realizar”: Estar com duas mulheres, ao mesmo tempo. Mas não serviria se fosse uma coisa banal. Garotas de programa, prostitutas ou uma transa surgida de uma bebedeira não me interessavam. Teria que ser com pessoas que tivessem carinho uma pela outra. Deveria existir uma cumplicidade entre as duas mulheres. Como previsto, resolvemos tentar realizar, de uma forma conjunta, as nossas fantasias eróticas. Unidos, teríamos coragem para investir na empreitada com a moreninha.

Iniciamos o dia seguinte (uma manhã de domingo com muitas nuvens) executando o plano traçado na noite anterior. Alugamos uma lanchinha e fomos dar uma volta pela baía de Angra. Sabíamos que o restante da turma já estava no mar há algum tempo e fomos em direção ao barco deles. Após o encontro, quando as embarcações seguiram caminhos opostos, a lourinha “resolveu” voltar com o grupo na lancha maior, pois “a menor estava lhe deixando enjoada”. Ficamos, eu e a gauchinha bronzeada, na tarefa de devolver nosso transporte ao cais e, posteriormente, encontrar a turma para almoçar.

Aproveitando que o tempo abriu e o Sol apareceu com toda a sua imponente luminosidade, sugeri parar um pouco em uma das ilhas para um mergulho rápido. Sugestão aceita, nadamos próximos à lancha até o momento em que propus um desafio. Ciente de que a morena era exímia nadadora (sua amiga havia sido generosa nas informações), propus uma corrida até a praia. Quem ganhasse teria direito a pedir qualquer coisa ao perdedor, que, por sua vez, não poderia se esquivar no cumprimento da prenda estipulada.

A certeza de que iria vencer-me com facilidade, encheu a garota de ânimo. Não sei o que ela pretendia pedir como recompensa pela vitória, mas ela resolveu triplicar a aposta. Deveríamos agir como o gênio da lâmpada de Aladim. Quem perdesse realizaria três desejos, e não apenas um, do vencedor. Ofereci-lhe uma pequena dianteira na saída, o que a ofendeu profundamente, numa ilusão de que realmente venceria. Mas a minha intimidade com a água vinha de muito cedo. As águas soteropolitanas do Porto da Barra já tinham me assistido nadar do Forte de Santa Maria até o Iate Clube, ida e volta, sem o menor sinal de esgotamento. Isso sem contar as braçadas quase que diárias na piscina da Associação Atlética da Bahia, durante um período da infância e da adolescência, sem contar com as travessias até o Pontal, quando passava férias em Ilhéus.

Inconformada com o resultado, propôs um tudo ou nada na volta para a lancha. Ofereci novamente vantagem e dessa vez ela se ofendeu como se toda a sua honra residisse naquele desafio. Bem, a irritação nunca foi amiga dos bons resultados... E, agora, eu era o feliz possuidor de seis desejos. Ela ficou de cara amarrada até o cais. Mas, com ar de bom moço, pedi para que ela realizasse o primeiro desejo e desse um belo sorriso. Inicialmente forçado, o riso foi perdendo a artificialidade e se transformou numa boa gargalhada. Peguei-me pensando em como ela era linda sorrindo! Com a naturalidade de uma criança brincando de roda, peguei-a pela mão e fomos andando e rindo até a pensão.

O segundo pedido foi feito na porta do seu quarto, antes dela entrar para tomar banho. Ela sorriu com um ar maroto, revelador de que aquele desejo realizado poderia ter sido economizado, uma vez que ela o desejava tanto quanto eu. Beijamo-nos com um misto de ímpeto e ternura. Estava feito: lancei as fichas confiando numa quadra alta e vi-me com um imbatível Royal Street Flash nas mãos. O melhor deste jogo era que o meu cacife era alto. E ela já havia demonstrado não estar preparada para identificar um blefe. Teríamos uma noite de duas damas e um coringa. De qualquer forma, em qualquer jogo, o Rei estaria em minhas mãos. Meu novo amigo era um alvo cada vez mais fácil para o meu xeque-mate.

Pela manhã a minha certeza era total! Uma bela encenação da lourinha, que, fingindo estar bêbada e passando mal, nos “obrigou” a levá-la para o quarto, tirar-lhe as roupas (que ela fez questão de sujar bastante durante sua performance) e colocá-la no chuveiro. Durante o banho, a falsa bêbada aproveitou para abraçar os dois, como se estivesse agradecida pelo socorro e beijou primeiro a mim e depois (iniciando a realização do seu sonho de anos) à amiga que, após uns poucos segundos de espanto, retribuiu ao carinho. Logo estávamos todos a trocar beijos e carícias sob o chuveiro e, ato contínuo, sobre a cama. Agora eu tinha duas aliadas que, além da total dependência financeira, agora se tornavam amantes e, eu, cúmplice de um segredo que elas temiam tornar-se público. Bingo! Outro ponto para mim.

Voltei para a casa, onde o grupo começava a acordar para curtir o domingo. Entrei na cozinha e cumprimentei a todos. Lá estava o meu alvo! Precisava dar um jeito de aproximá-lo das duas aliadas. Era preciso preparar terreno para que ele se interessasse por uma delas e, então, aceitasse um convite para uma viagem a quatro, onde eu poderia estar mais à vontade para investigar o que ele sabia e que iria me tirar das costas o problema que me atormentava: o maldito silêncio da polícia e o barulho daquele jornalista. Minha missão estava próxima de ter um fim satisfatório. Eu tinha certeza disso. Era tudo uma questão de tempo e estratégia.

A manhã chegou com gosto de quero mais, mas eu não podia permitir-me a facilidade do prazer. Minha missão era outra. A minha convicção e meu objetivo deviam guiar-me. Sempre! Abandonei os pensamentos e as lembranças. Deixei de lado toda a delícia noturna e me preparei para usar aquele novo dia da melhor maneira possível, para tecer mais uma etapa daquela rede que eu bordava em busca de um inseto que tanto poderia ser vítima, quanto algoz. Venenoso e mortífero. Eu, obviamente, torcia pela aranha.

Capítulo 08 - DUNAS E DUNAS

O final de semana transcorreu às mil maravilhas (ao menos para os meus planos). O meu novo amigo, apesar de ser um cara boa pinta, não era dos mais desprendidos no trato com o sexo oposto. A sua timidez em relação às mulheres foi uma descoberta que me facilitou muito a execução do meu plano. As minhas “contratadas” fizeram direitinho o papel que lhes cabia e ele, que passava uma imagem de durão, mostrou-se extremamente ingênuo e frágil diante dos encantos femininos. Segredou-me estar apaixonado pela lourinha gaúcha e que pensava em tirar férias para acompanhá-la em uma viagem pelo Nordeste. Estava feito!

Obviamente achei a idéia maravilhosa e me dispus a ir junto, pedindo, inclusive, a sua ajuda para me aproximar da moreninha. Ele ficou exultante com a possibilidade de viajarmos todos juntos e ofereceu o seu apartamento para que nos hospedássemos no Rio até o dia da nossa viagem. Voltamos de Mangaratiba logo depois do pôr do Sol de domingo.

Retirei as minhas coisas do hotel e me instalei, juntamente com as garotas, no amplo apartamento do meu novo amigo. Órfão de pai e mãe, depois da morte da irmã pensou em desfazer-se do imóvel de quatro quartos, mas não teve coragem de se afastar do ambiente em que fora criado. Os laços afetivos eram muito importantes na sua vida. Uma fraqueza a ser bem explorada!

Ele cedeu-me o seu quarto, transferindo-se para o que fora dos pais e que continuava arrumado como se eles ainda estivessem ali. As meninas ficaram no quarto de hóspedes. O que era da irmã transformou-se numa espécie de templo sagrado, onde, a muito custo, pude observar: recortes de diversos jornais do país inteiro relatavam atos do Forasteiro (apesar de nenhum - e eu os conhecia na totalidade - citasse esta alcunha) e as matérias sobre a irmã tinham sido ampliadas e tinham um destaque especial. Ele ficou transtornado ao ver-me na porta do quarto. Eu desculpei-me dizendo ter confundido a porta com a do sanitário, que ficava bem ao lado. Ele acreditou, mas pediu-me para não abrir mais aquela porta. Ato contínuo, avisou às garotas a mesma coisa, sem maiores explicações. Ele acompanhava tudo e eu sabia que a maioria das matérias tinha a participação daquele jornalista enxerido.

Aproveitei os momentos em que estava sozinho no quarto dele para fuçar as coisas e, qual não foi a minha surpresa quando descobri, numa velha fotografia de escola, que o meu amigo e o repórter tinham sido colegas. Estava feito o elo. Agora era preciso obter as informações. Eu tinha que saber o quanto eles sabiam!

Durante os cinco dias que passamos naquele apartamento, eu investiguei o que foi possível e gastei o resto do tempo armando as novas jogadas daquele xadrez humano. Na terça-feira eu já havia colocado a lourinha debaixo dos lençóis do tímido carioca, mas não quis que a morena dividisse o quarto comigo. Queria privacidade para olhar as coisas e fiz o papel de acanhado, conseguindo ser mais atabalhoado com as mulheres que o meu amigo.

Cada dia mais feliz e apaixonado, ele acelerou as coisas e anunciou que, se quiséssemos, poderíamos começar a viagem na sexta-feira. Assim foi feito. Fomos de avião até Fortaleza, de onde desceríamos (acreditavam eles) até a Bahia, de carro alugado. No que dependesse de mim, essa viagem não deveria chegar a Alagoas.

Vôo tranqüilo e chegada com um inicio de noite de clima extremamente agradável. Alugamos um carro ainda no aeroporto e seguimos para o hotel onde as reservas haviam sido feitas. Na divisão dos quartos, acabei “obrigado” a dividir o meu com a morena e deixei o casalzinho de apaixonados ocupar o outro. Até aqui, tudo sobre controle. Agora, era movimentar as peças do jogo. Eu seria o vento. Eles, as dunas.

Capítulo 09 - AS VELAS DO MUCURIPE

Após seis dias em Fortaleza, o clima entre o casalzinho já era de amor eterno. O carioca era mais manipulável que massa de modelar e o clima romântico das noites quentes completava o cenário ensolarado dos dias de passeio pela capital cearense. No entanto, eu precisava de um lugar mais tranqüilo para saber o que queria. Jeriquaquara mostrou-se ideal para as minhas necessidades. Um paraíso onde os quatro estariam bem próximos naquela barraca de dois quartos que comprei para nós.

Alugado o bugre, seguimos para Jerí na sexta-feira bem cedinho. Escolhi um local bem isolado para acamparmos. Armamos a barraca, preparamos a fossa que serviria de sanitário, desembalamos as provisões e fomos conhecer o local. De carro, a distância até a vila era facilmente transposta, mas, a pé, poucos se aventurariam a chegar onde estávamos. O dom do equilíbrio!

Já na primeira noite o carioca soltou o verbo na direção que me interessava. Numa conversa ao redor da fogueira, a sua amada lourinha gaúcha contou um pouco da sua biografia e - brilha, brilha, estrela minha! - falou sobre a irmã que havia morrido dois anos antes. Ele nem esperou ela concluir o que dizia e desatou a falar e chorar compulsivamente. Nada para mim era novo, a não ser o fato de que aquele jornalista cretino havia sido o primeiro namorado da irmã dele. Porém as novidades findaram-se por aí. O sujeito tanto falava quanto entornava a cachaça cearense que compramos na vila. Apagou nos braços da sua queridinha, depois de vomitar por sobre a fogueira.

Até o domingo não se falou mais sobre o assunto. E iria continuar desse jeito se eu não tomasse alguma providência. Como a minha gênia da lâmpada de Aladim ainda me devia três desejos, pedi que ela sondasse a respeito do jornalista, com a desculpa de que gostaria de conhecê-lo, pois tinha uma enorme vontade de fazer vestibular para comunicação. Ela não questionou (afinal, não se arriscaria em perder o seu mecenas) e mostrou-se muito eficiente no cumprimento da sua missão.

O cretino estava morando justamente em Sampa, local do primeiro encontro do Forasteiro com uma incauta, e fez a cobertura para um jornal de bairro. Quando soube da morte da ex-namorada, foi ao Rio para o enterro e descobriu características similares entre as duas mortes. Tempos depois, comentou com o meu querido amigo carioca sobre as coincidências. Resolveram pesquisar outros jornais e encontraram pequenas notas com óbitos semelhantes. Passaram a investigar juntos, iniciando a coleção de recortes que vi no quarto/santuário da casa dele.

Passaram seis meses viajando por alguns locais onde mortes idênticas ocorreram, mas pararam por falta de verba. O jornalista era um foquinha free-lancer de segunda categoria e o irmãozinho perdeu o emprego por faltar constantemente, por viagens, ou por estar bêbado. Tentaram convencer alguns agentes de polícia de que as mortes tinham ligação. Mas quem levaria a sério um foquinha marrom e um pinguço desesperado?

Retomariam as investigações, logo que conseguissem mais dinheiro para viajar atrás das pistas. Essa viagem pelo Nordeste só havia sido possível porque ele tinha recebido férias e décimo-terceiro, precisava colocar a cabeça no lugar e não podia deixar de estar perto do primeiro grande amor da sua vida! É impressionante como o amor imbeciliza as pessoas! Um ser vulnerável como ele e, ainda por cima apaixonado, era tudo que eu precisava. Eu, por minha vez, mantinha-me imune a tais sentimentos. A minha cota de imbecilidade e sofrimento já se esgotara há muito, mas deixara marcas permanentes em minha existência.

Decidimos que na terça-feira alugaríamos um carro maior e seguiríamos viajem para Natal. A jornada cearense chegava ao fim. No dia seguinte levantamos acampamento e fomos para Fortaleza. Em um barzinho a beira-mar curtimos a última noite em terras de Iracema ao som de Fagner, Ednardo e Belchior. Uma canção ecoou na minha cabeça:

As velas do Mucuripe
Vão sair para pescar
Vou levar as minhas mágoas
Pras águas fundas do mar
Hoje à noite namorar
Sem ter medo da saudade
Sem vontade de casar...


Abracei a moreninha gaúcha num misto de desespero e ternura que a deixou confusa e impressionada. Fizemos amor por toda a madrugada, como se não fosse possível existir sexo no mundo além daquela noite. Ao acordar pela manhã, ouvi uma frase que, há algum tempo, até me comoveria. Contudo, aquele "eu te amo!" era apenas mais uma arma a meu favor. Uma arma perigosa, é verdade, uma vez que uma mulher arrebatada pela passionalidade pode ser extremamente imprevisível. Mas de que vale a vida sem riscos?

Capítulo 10 - SAL DO MAR E DOS OLHOS

A chegada no Rio Grande do Norte foi debaixo de muita chuva. Como sempre, a previsão meteorológica não tinha nada de lógica e um temporal desabava sobre o estado. Como viajávamos pela BR-116, passamos o primeiro dia em Mossoró. Ficamos presos no hotel, pois as ruas estavam alagadas; uma chuva de verão com todas as suas características: imprevisível, violenta, destrutiva. Aquela chuva era uma forasteira naquelas paragens. Gosto de chuvas de verão, pensei sorrindo.

Na quinta-feira fomos conhecer a cidade. Realmente uma estada agradável. Curioso é notar como a população local disputa com a capital o título de melhor cidade do estado, alguns chegando ao extremo de desejar "Feliz Mossoró" para não dizer "Feliz Natal"! No final do dia seguimos viagem pela 116, já que era muito arriscado confiar nas estradas litorâneas depois da chuvarada. O estio nos permitiu dar pequenas paradas em Açu, Angicos e Lages. Não sei porque, mas os nomes estavam começando a grudar na minha cabeça. Talvez por olhar tanto o mapa rodoviário, que o carioca nunca acertava utilizar com proveito.

Já em Natal, fizemos a programação básica de qualquer turista, conhecendo o Forte dos Reis Magos, onde a cidade se originou, a Barreira do Inferno, primeira estação orbital do País, as diversas praias, as salinas, restaurantes, bares, enfim, tudo que Natal tem para oferecer. Trocamos o carro por um jipão e seguimos para Touros, no litoral do extremo nordeste do estado. Afastados dos grandes centros, ficava mais fácil controlar a situação. Nem mesmo na pequena cidade me interessava ficar. Então, incitei o espírito de aventura do carioca e, mais uma vez, foi muito fácil manipulá-lo. Assim, armamos nossa barraca em uma praia deserta, longe de tudo e de todos, mas bem perto dos meus objetivos.

As gaúchas estavam deslumbradas com o Nordeste e cada vez mais dependentes da verba que eu liberava sem restrições. Além disso, estavam cada vez mais conscientes do que sentiam uma pela outra. Isso só me dava tranqüilidade, pois aquele "eu te amo" dito no Ceará não tinha a verdadeira profundidade que a frase merece. Tinha sido uma fraqueza de momento, tal qual a minha entrega na noite que a fez surgir. Essa relação entre as duas me seria extremamente útil na hora de colocar um ponto final na paixão do carioca.

Ali, naquela praia deserta e paradisíaca, o meu querido amigo se entregou ao antigo vício de forma descontrolada. Bebia em qualquer turno e apagava em sonos de horas a fio. A aguardente nordestina entrou na sua dieta diária e, em alguns dias, era a sua maior fonte de calorias. Desde que falamos sobre a morte da irmã da lourinha e ele falou sobre a sua irmã e sobre o jornalista cretino que ele aumentou gradativamente a sua cota de álcool diária. A lourinha poderia até ter se chateado do seu companheiro estar agindo daquela forma. No entanto, aqueles momentos em que ele estava apagado eram as oportunidades perfeitas para as meninas exercerem o seu amor.

Aproveitando-me da situação, oferecia o jipão para que fossem passear e ficava esperando o sujeito acordar do porre. Oferecia a minha compreensão, aconselhava-o a diminuir a cachaça e falava que ele ia acabar afastando o grande amor da sua vida, que estava solitária e cada vez mais entediada daquele acampamento. Numa dessas vezes ele desatou a chorar. Chorou até não poder mais e então, como se jamais tivesse colocado um copo de bebida na boca, começou a falar com uma tranqüilidade e lucidez impressionantes.

"Minha irmã era uma boa menina. Estava um pouco desnorteada com a morte dos nossos pais e eu, seu único ponto de apoio, estava mais preocupado em ganhar dinheiro. Só me dedicava ao trabalho, não dando atenção aos seus problemas. Era apenas uma adolescente pedindo socorro e eu a tratava com indiferença. Quando esse meu amigo jornalista começou a namorar com ela eu achei ótimo, pois haveria alguém para cuidar dela. No entanto, ele acabou por apresentá-la à maconha, que para ele era inócua, mas que para ela foi um vício quase que imediato. Quando ele se mudou para São Paulo, ela passou a procurar o vício pelas ruas. Saia pela manhã e só voltava à noite. Como tínhamos algum dinheiro deixado pelos nossos pais, ela nunca precisou roubar ou se prostituir, mas andava por aí em péssimas companhias. Um dia ela saiu pela manhã, cedo, no mesmo horário que eu. Ofereci carona, mas ela recusou. Seguiu em direção ao ponto de ônibus e essa foi a última vez que a vi com vida. Depois disso, só a reencontrei no Instituto Médico Legal.

O resto você já sabe, já falei lá em Jerí. Minha vida havia se tornado uma obsessão na busca deste monstro assassino, até que vocês apareceram e me deram um novo alento, desde o dia em que o conheci lá no bar do portuga que eu vi que você tinha alguma coisa diferente das outras pessoas. É como se eu tivesse uma relação com você que nem mesmo sei como explicar. Além disso, por sua causa estou vivendo o grande amor da minha vida que, apesar de ter passado por uma perda parecida com a minha, é cheia de vida, alegre, carinhosa. E eu estou quase perdendo esta mulher para a bebida. Por favor, meu irmão, me ajude! Eu já perdi coisas demais na vida. Preciso de você, meu irmão!”.

Ele nem imaginava o bem que aquelas palavras me faziam. Eu era o "seu irmão". Então, onde ele procuraria abrigo depois da decepção de encontrar a sua amada nos braços da amiga? Quem estaria passando pela mesma situação embaraçosa? Quando elas partissem, quem estaria ao lado dele para apoiá-lo? Afinal, para que servem os irmãos? Logo, logo eu estaria frente a frente com o cretino do jornalistazinho. Até mais cedo do que eu esperava. Era hora de começar a pensar no que fazer com o foquinha.

Apesar do momento de lucidez, bastou que eu saísse para dar uma volta pela praia para o meu "irmãozinho" entornar mais umas talagadas da branquinha de alambique. Quando voltei, as meninas já estavam no acampamento e, o carioca dormia e babava estirado na toalha ao lado da barraca. Pelo nível do que havia sobrado na garrafa, ele só acordaria na metade da manhã seguinte. Deixamos que ele dormisse em paz e fomos até uma fonte de água doce tomar um banho a três. Um belo banho a três.

Retornamos a Natal três dias depois. Dali deveríamos seguir para João Pessoa no dia seguinte. Dispensamos o jipão e alugamos um carro mais confortável. Tive que dirigir quase todo o percurso entre as duas capitais, já que o meu "irmãozinho" passou a maior parte do tempo de porre e as meninas não tinham habilitação. Qualquer envolvimento com polícia deveria ser evitado a todo custo. Aquele que estava ali era eu; o eu verdadeiro. E a Paraíba seria o último estágio da nossa viagem a quatro. Estava na hora de por um fim àquele lindo romance de verão.

Capítulo 11 - MULHER MACHO

Como era eu quem guiava o carro e a única pessoa que poderia contestar alguma coisa estava nos braços de Morfeu (depois de passar pelo colo de Baco), resolvi me afastar do litoral a partir de Maranguape, seguir por Esperança e ir até Campina Grande. Um pouco de sertão faria bem à cultura das belas gauchinhas. Uma cidade que misturava tradição e modernidade seria perfeita para esse aprendizado.

Um povo hospitaleiro e sorridente contrastava com a aridez do solo. Ali elas viram de perto o verdadeiro forró nordestino, com sanfona, zabumba e triângulo e assistiram a um show de embolada na feira municipal, onde comemos bode assado no almoço e rapadura na sobremesa. Meu "irmãozinho" apreciou "por demais" a cachaça local. Por demais mesmo. Ficamos mais um dia na cidade por conta de uma coma alcoólica que o acometeu. Era a minha deixa para criar a situação limite em João Pessoa.

Quando o carioca se recuperou da carraspana e já podia entrar num carro sem o entojo de uma grávida, seguimos rumo à capital paraibana. Chegamos à noitinha e fomos direto para um hotel à beira mar. Enquanto as meninas terminavam o jantar, aproveitei para dar novos conselhos ao "irmãozinho". Disse-lhe que a lourinha já não estava mais suportando aquela situação e que eu também estava sendo prejudicado, já que ela sempre procurava apoio com a amiga e isso me deixava sem companhia em grande parte do tempo. Mostrei que ele estava transformando uma bela viajem em uma coisa desagradável para todos. Ele sabia que podia contar comigo, mas as meninas não estavam gostando do rumo que as férias tomaram e eu não tinha mais argumentos para convencê-las do contrário. Tudo estava nas mãos dele, do seu controle em relação à bebida. Ele estava destruindo um relacionamento que ele mesmo havia classificado como a melhor coisa que já lhe acontecera.

Convidei-o para dar uma volta pela orla para conversarmos mais à vontade, sem a presença das garotas. Fui ao restaurante e avisei-as de que iríamos sair e demorar um pouco para voltar. Claro que eu sabia que elas entenderiam a deixa implícita. Com pouco mais de meia hora de caminhada, disse-lhe que precisava retornar ao hotel, pois a comida não havia caído muito bem. Fomos direto para os quartos e entramos pelo meu, uma vez que eu havia levado a chave comigo e como os quartos eram conjugados, ele poderia passar de um para o outro pela porta contígua, antecipadamente destrancada por mim.

A lividez do seu rosto dava-me a certeza de que tudo havia saído como eu previra. Achei que o sujeito fosse ter uma síncope quando os seus joelhos arquearam e ele ficou sustentado pela mão que estava na maçaneta da porta. Não disse palavra. Saiu esbaforido pelo corredor e nem esperou o elevador; desceu as escadas correndo feito um louco. Coloquei a cara para dentro do outro quarto e disse às meninas: sujou! A gargalhada só não saiu ali mesmo porque eu há muito sei controlar as minhas emoções. Faz parte da sobrevivência.

Saí para procurá-lo, mas tinha certeza de que não o encontraria. Não por agora. Às dez horas recebi um telefonema dele, pedindo para levar as suas coisas para um outro hotel no centro da cidade. Quando lá cheguei, ele estava surpreendentemente sóbrio. O tiro foi mais certeiro do que eu esperava. Ele não estava aborrecido com as garotas. Estava furioso consigo mesmo. Ele criara aquela situação deixando-a carente, colocando-a muito próxima da amiga e, pior de tudo, fazendo com que a morena se afastasse de mim. Não sabia como enfrentar aquela situação. A cena foi muito forte para ele. Jamais as olharia da mesma maneira. Jamais se perdoaria pelo que fez comigo. Não tinha mais condição de prosseguir viagem. Voltaria sozinho para o Rio de Janeiro.

Solidário, avisei que passaria aquela noite no hotel da orla, conversaria com as garotas e, no dia seguinte, elas seguiriam o rumo delas e eu, seu "irmão", voltaria com ele para o Rio. Não abandonaria um amigo em um momento como esse.

Encontrei as garotas sem graça. Acharam que tinham estragado tudo e que eu deixaria de financiar-lhes a viagem. Combinei um belo depósito na conta delas para o dia seguinte, que garantiria, pelo menos, mais dois meses de viagem. Faria um segundo depósito ao final de dois meses, contanto que elas mandassem correspondência para a minha caixa postal do Rio de Janeiro dizendo onde estavam. Afinal, brinquei com a morena, ainda sou possuidor de dois desejos. E vou caprichar nos últimos. Saímos para uma noitada na capital paraibana e passamos a noite nos despedindo em grande estilo.

Pela manhã, fui buscar o carioca no outro hotel. Permanecia sóbrio, com profundas olheiras de uma noite insone e chorosa. Aquele "cabra" não combinava com a "Paraíba masculina, mulher macho sim senhor". Próxima escala: Rio de Janeiro, again!

Capítulo 12 - A ARANHA ARRANHA O JARRO

Durante o vôo para o Rio o meu "irmãozinho" dormiu todo o tempo, deixando-me livre para raciocinar sobre as informações obtidas até então. Ele e o foquinha tinham ido a alguns locais onde o Forasteiro apareceu, fizeram perguntas e deram sugestões à polícia, mas, pelo que ficou claro, não foram levados a sério em nenhum desses locais e partiram para uma investigação própria. Recolheram recortes de jornais, amontoaram informações e a única coisa que conseguiram descobrir foi o óbvio: todos os acontecimentos tinham semelhança. No entanto, desconhecem dados como o uso de fita crepe e como se chama o autor das mortes.

Em resumo: esses idiotas não têm nada de concreto. Apenas um monte de suposições. E, além de tudo, não têm como se auto financiar para continuar as investigações. E esse seria o meu ponto chave para reunir os dois novamente e colocá-los ao meu alcance. Como amigo, como "irmão" deste pudim de cachaça, financiar as pesquisas sobre o crime seria o mínimo que eu poderia fazer depois da nossa desastrada aventura pelo Nordeste.

Desembarcamos e fomos direto para o apartamento dele em Botafogo. No caminho, insinuei que ficaria apenas por um dia e depois iria para um hotel, o que ele contestou com veemência. Ficaria na casa dele o tempo que eu quisesse. Suas férias acabariam logo e deveríamos aproveitar o pouco que restava para desfazer a péssima impressão que ele causara durante a viagem. Relutei um nada e aceitei.

Uma vez dentro do apartamento seria fácil entrar no santuário e investigar se havia mais alguma coisa além do que já havia sido dito. Aquele quarto não era apenas um museu de recordações e tristezas. Eu tinha certeza que ele era um arquivo que em muito iria me interessar. Ali devia estar a chave final para deixar-me livre de preocupações e dos dois enxeridos. Se ali não estivesse, estaria nas mãos do foquinha e ele logo, logo, estaria nas minhas mãos.

Na manhã seguinte retomamos a conversa sobre as coisas que ocorreram durante a malfadada viagem de férias. Era o momento da terminar de tecer a teia que, agora, teria que capturar dois insetos. E aquele inseto voava para mim como fosse eu uma lâmpada. E todos sabem que vence a luta entre insetos e lâmpadas...

O meu "irmãozinho" lamentava-se por tudo que havia feito, por tudo que havia acontecido. Apesar da desilusão causada pela cena assistida no hotel, sabia que fora ele o causador de todo clima que veio a surgir entre as gauchinhas. Ele e sua bebida sem limites já tinha destruído muita coisa desde que sua irmã morreu.

Neste ponto eu o interrompi. Não! Não era ele o culpado do que acontecera. O culpado da mudança na sua vida inteira foi aquele que levou a sua irmã de perto dele. Este sim era o verdadeiro culpado. Deixei-o acreditar que eu estava falando do Forasteiro. Era preciso por tudo em pratos limpos. Enquanto ele não conseguisse se livrar daquele fantasma, não teria como levar a sua vida em frente com normalidade. Ele deveria sobreviver, afinal, era o último representante daquela família. Tinha que sobreviver pelos pais e, principalmente pela irmã. Ou tudo teria sido em vão!

Ele concordou, como sempre. O grande problema era o dinheiro. O custo de viagens e pesquisas era alto. Nem ele nem o foquinha tinham mais cacife para bancar as despesas.

Talvez seja um custo muito alto para dois, concordei, mas, se dividirmos por três, pode ficar mais em conta. Estou nessa com vocês, eu disse. Ele ficou parado, me olhando como se eu tivesse dado um sopro de vida naquele boneco de barro. Abraçou-me como se eu fosse uma tábua de salvação em meio ao oceano. Vibrou como uma criança ao ganhar um brinquedo novo que esperava há anos. Pronto! Estava feito!

Decidimos ligar para o foquinha imediatamente. O cretino estava na pior. Não estava conseguindo nenhum trabalho como free-lancer, nem mesmo em jornais de sindicatos (e olha que em São Paulo tem muitos! - Grande jornalista!). Fiquei de mandar o dinheiro da passagem e das despesas com a vinda para o Rio, adiantar uma grana para ele acertar o aluguel do apartamento que morava. Tudo acertado, em três dias ele estaria conosco.

Três dias depois, estávamos nós traçando estratégias para as investigações. Como eu era o último a entrar na história (coitados!) ficaria no Rio como ponto de apoio para eles e, quando necessário, pegaria a ponte aérea para Sampa. Perfeito!

No primeiro vacilo que o foquinha deu, mandei copiar todo o seu molho de chaves. O endereço eu já havia obtido com a desculpa de enviar cópia do comprovante de depósito, caso ocorresse algum extravio do dinheiro. O mais difícil, por enquanto, era entrar no santuário. Mas assim que estivesse sozinho no apartamento, vasculharia cada pedacinho de cada gaveta, cada página de cada livro, cada fresta de mobília. Se houvesse alguma coisa interessante ali, não me passaria desapercebida.

Os recortes que possuía somavam doze ocorrências. Portanto, dezessete delas não estavam computadas pelos Sherlocks tropicais e, das que possuíam, algumas ocorreram nas mesmas cidades que eles já haviam estado. Além disso, não estavam em seqüência; haviam hiatos entre as aparições do Forasteiro. Iriam viajar para nada. Que pena!

Meu irmãozinho foi para Curitiba e o foquinha para Brasília. Passariam, no mínimo, quatro dias investigando. Como a polícia não havia lhes dado a devida atenção (e deveria ter dado!), sugeri que sondassem perto dos locais onde os fatos aconteceram, conversando informalmente com porteiros de prédios, donos de bancas de jornal, taxistas que freqüentam sempre o mesmo ponto, pessoas que pudessem ter visto algo que poderia ser útil para nós e que a polícia não tivesse investigado. As bordas da teia já estavam prontas. Agora restava tecer até o centro, cuidadosamente.

Uma vez com acesso ao tal santuário, tomei todas as precauções para não deixar rastros. Como ele mantinha o local sempre limpo e arrumado, não poderia deixar marcas, nem mudar nenhum objeto de lugar. Decidi usar meias e luvas de seda que comprei com certa dificuldade em uma antiga loja feminina no centro. Sem rico de pegadas, digitais, fios soltos. O mais difícil foi me acostumar a andar sem escorregar e segurar os objetos com a firmeza necessária. Nada que um dia de treino intensivo não solucionasse.

Em dois dias não havia um milímetro quadrado que não tivesse sido vasculhado com a atenção e a precisão de um cirurgião oftalmológico. Fotografei e anotei tudo que me pareceu importante, mas o que mais me deixou intrigado foi o fato da menina citar por duas vezes, em seus cadernos, um diário que não estava em nenhum lugar do quarto ou da casa. Com quem e onde estaria este diário? E mais uma vez "algo" me disse. E como "algo não mente jamais", a minha próxima escala era o apartamento do foquinha em São Paulo. Como os dois retornariam logo, deixaria para viajar na próxima oportunidade.

Retornaram sem nada de concreto, mas os fiz ver que aquilo era um grande quebra-cabeças e que apenas estávamos começando a coletar as peças. Se elas ainda não se encaixavam era porque outras peças ainda não estavam em nosso poder. Retomaram o ânimo e concordaram que deveriam viajar logo no outro dia pela manhã.

Afinal, as férias do meu "irmãozinho" estavam acabando e era preciso ganhar tempo. Eu iria a São Paulo tentar encontrar novas pistas nos locais já visitados pelo foquinha. Fizemos um painel na parede da sala, onde afixamos as informações obtidas até então. Aquilo estava uma pândega!

No apartamento do jornalistazinho agi da mesma forma que havia feito no santuário, apesar daquilo ali estar uma baderna. Mas, como os bagunceiros sabem onde encontrar as suas coisas em meio ao caos, era melhor não facilitar. Como "algo" havia me dito, o diário estava lá, guardado em meio a fotos e cartas em um armário na área de serviço. Fotografei e anotei o local e a posição de cada coisa e levei tudo para fotocopiar, recolocando cada uma no seu devido lugar. Pronto. Para todos os efeitos, eu nunca havia estado ali. De volta ao Rio, passei a estudar minuciosamente tudo que havia naquelas cartas e naquele diário. O fim dos grandes investigadores estava bem ali.

Quando os dois retornaram, reunimos as poucas informações conseguidas e colocamos no painel. Como São Paulo era o local de maior número de ocorrências, sugeri que fossemos os três para lá até o final das férias do carioca. Embarcamos no dia seguinte.

Já na capital paulista, foi muito fácil estar a sós com o meu "irmãozinho". Uma overdose de laxante pode mandar qualquer um para o hospital. E o foquinha foi! Desastradamente, derrubei uma tigela de sopa por sobre mesa e cadeiras. Em busca de material de limpeza para me ajudar a desfazer a meleira, o carioca abriu o armário da área de serviço e encontrou as fotos da irmã. Quando eu fui para perto dele ver o que estava acontecendo, vi que havia o nome dela na capa do diário. Ele resolveu lê-lo, pois já havia visto citações sobre ele em cadernos dela. A transformação foi imediata. Foi difícil convencê-lo a esperar o amigo voltar do hospital para poderem esclarecer tudo. Bingo!

Como ele estava extremamente alterado, convidei-o para dar uma saída para espairecer. Depois da primeira dose, veio a primeira garrafa... Bingo!

Depois de uma lavagem intestinal e re-hidratação com soro, o foquinha retornou para casa. Sem entender o que se passava, mal teve tempo de se proteger socos e pontapés que o atingiram por todo o corpo. Debilitado pela estada no hospital, virou presa fácil para aquele irmão enfurecido. Quando voltei do supermercado, onde fui buscar mantimentos para os próximos dias, já encontrei o circo armado: carros de polícia, ambulância, centenas de curiosos, um apartamento semidestruído pela fúria de um amigo traído, de um irmão vingativo e um assassino de mulheres estirado no chão à semelhança de uma posta de carne. Bingo!

Após o meu depoimento, a polícia recolheu diário, cartas e fotos do apartamento e pediu à polícia carioca que investigasse o apartamento de Botafogo. O inquérito não foi demorado, já que o "irmãozinho" foi preso em flagrante e declarou que faria tudo novamente, que o mundo estava livre de um monstro e sua irmã vingada. Agora aguarda julgamento lá no Carandiru. O Forasteiro estava morto pelas mãos de um irmão alucinado. E como ele não ficaria assim, lendo as páginas daquele diário, lendo aquelas cartas?

"Meu amor, como você pode me desprezar assim? Sempre fiz tudo que você pediu. Até o nosso filho eu tirei para não lhe desagradar..." / "...não tenho mais como lhe mandar dinheiro. Não posso pedir ao meu irmão, pois ele não concorda com o meu vício. Já não sei mais o que fazer. A sua proposta para que eu seja garota de programa é demais pra minha cabeça..." / "Querido diário, hoje fiz uma coisa horrorosa! Me sinto imunda, mas não tinha outro jeito. Preciso de coca. Ele precisa! Não sei se vou ter coragem de fazer isso outra vez. Nunca pensei que tivesse coragem de fazer, mas fiz. Eu sou uma puta!..." / "...você não responde minhas cartas, não aparece aqui no Rio, não quer que eu vá pra aí. É assim que você me ama? Que amor é esse?..." / "Querido diário, preciso esquecer esse amor que está me destruindo. Como posso amar alguém que me abandonou sozinha? Eu estou sustentando o vício de nós dois com o meu corpo. Já nem sei mais a quantos eu me entreguei..." / "...na última vez que falei com você por telefone, você me disse que, assim como eu, haviam muitas outras e você já se livrou de todas. O que você quis dizer com isso? O que significa se livrar?" / "...que bom que você resolveu atender meus pedidos e vem para o Rio me ver. Meu irmão adoraria ver você. Não sei porque você não quer que ele saiba que você vem pra cá...".

Determinadas pessoas são tão previsíveis que chega a não ter graça o resultado final da trama, por ser óbvio. Alguns insetos não merecem a teia em que morrem!

Capítulo 13 - HIATO

Desfiz mais do que pretendia. Consegui me livrar dos dois bisbilhoteiros, mostrei à polícia que havia uma só pessoa por trás de todos as ocorrências pelo País a fora, confirmei não haver qualquer suspeita sobre a minha pessoa, mas, infelizmente, eliminei a figura do Forasteiro. Eu gostava dele e não o preservei. Pensei unicamente em mim. Agora eu tinha que recomeçar do zero a minha missão de afastar determinadas meninas do risco de sofrerem nas mãos de maníacos. Era preciso dar uma parada em tudo. Pensar muito no que fazer por elas, por todos os outros eus que, naquele instante, estavam inúteis. Eles eram o Forasteiro e, através deles, a sua missão poderia seguir adiante. Mas de que forma?

Voltei para Salvador e decidi, por algum tempo, continuar sendo somente eu. Apliquei o dinheiro de todas as outras identidades em fundos de investimento e deixei-as em stand by. Iria enfrentar a experiência de enfrentar, sozinho, todos os fantasmas que povoam a minha cabeça.

Capítulo 14 - O FORASTEIRO

Vendi tudo que possuía: o velho Gol branco, os apartamentos da Barra e de Vilas, a casa de Atalaia e outros imóveis que estavam alugados. Encerrei as contas bancárias de todas as outras identidades que eu tinha. Descobri que estava, realmente, muito rico!

Apesar dos gastos com viagens pelo Brasil a fora, os investimentos em imóveis e no mercado financeiro me deram um rendimento muito maior do que imaginava. Peguei a maior parte do dinheiro e apliquei em ouro, devidamente guardado em um cofre de banco. O restante eu usaria para comprar um sítio na localidade de Pedras, um distrito da cidade de Santo Amaro.

O sítio fica bem afastado das estradas, de acesso difícil e, portanto, de improváveis visitas. Principalmente porque não avisei a ninguém para onde estava indo. Comprei um fusquinha para enfrentar as estradinhas de barro nas poucas idas e vindas a Santo Amaro para reabastecer a despensa. Não plantei nada, não criei bicho algum. Deixei o mato crescer a vontade, deixando apenas a clareira onde se encontram a casa e a piscina. Do antigo caminho da casa até a porteira, nada restou. Mandei transplantar diversas árvores e criei um ziguezague que não permite a quem passe pela estradinha que ladeia a cerca ver nada além de mato.

Depois de três anos vivendo sozinho no sítio, tendo como parceiro esporádico um Zé local (que fazia a limpeza da casa, da clareira, do caminho e da piscina), resolvi chamar minhas duas amigas gaúchas para passar uma temporada comigo. Aquelas bonequinhas estavam cada vez mais lindas e apaixonadas. Estavam morando em São Paulo há pelo menos dois anos, no aprazível bairro de Perdizes. Estive lá pouco antes de mudar para Pedras. Estavam bem. Investiram direitinho a grana que eu dei de presente e não precisariam nunca mais dos parentes preconceituosos que deixaram no Rio Grande do Sul.

Chegaram a Santo Amaro numa ensolarada tarde de dezembro. Eu as esperava na rodoviária local com o velho e bom fusquinha. Dei um breve passei pela cidade, para elas verem "a terra de Caetano e Bethânia" e fomos para o sítio. Passamos uma semana maravilhosa. No segundo domingo em que estávamos juntos, recebi a grande surpresa: se eu permitisse, a minha moreninha iria voltar para São Paulo no dia seguinte, ficar o tempo necessário para cuidar de tudo e retornaria para vivermos os três no sítio. Permiti.

Vivíamos tranqüilamente no sítio. Viajávamos de vez em quando para outras cidades, estados, países, mas o nosso porto seguro era ali. Até que, após uns sete anos de paraíso, ao retornar de Salvador, onde havia ido fazer o check-up médico anual, encontrei a visão do inferno. Moradores locais dependurados em cercas e árvores, carros de polícia, uma balbúrdia. Zé, de olhos esbugalhados, parecia um vampiro com aquela estaca enfiada no peito. Por fim, minhas duas menininhas boiando na piscina, com as marcas da violência ainda pelos corpos. Fiquei estático, impassível, catatônico.

A única testemunha existente identificou os assassinos. Eram jovens rapazes da região, envolvidos com drogas. Provavelmente, em busca de objetos de valor e dinheiro, encontraram minhas princesas nadando na piscina e não resistiram à tentação daqueles belos corpos nus. O pobre Zé deve ter tentado defendê-las. Não era uma mente brilhante, mas era fiel como um cão de guarda.

Quando finalmente recobrei a ação, acompanhei a retirada dos corpos, fui à delegacia depor, avisei às famílias e providenciei o enterro dos três. Fechei o sítio e fui embora daquela cidade para nunca mais voltar.

Andei por diversos lugares, não me fixei em nenhum, nem a ninguém. Vivi como um fantasma, um homem invisível. Desisti de acreditar em qualquer sentimento. Bom ou ruim. Vivia sem saber nem porque. Até que aconteceu o que "algo" não me disse.

Perambulando pelas praias de Maceió, eu vi o que jamais imaginei ter forças para ver. O tempo não havia passado para aquele corpo, aquele rosto, aquele sorriso! Estava do mesmo jeito que se ocultara nas profundezas da minha memória. Fui me aproximando devagar, como se aquela areia agarrasse os meus pés e me fizesse lento. Quanto mais perto eu chegava, mas tinha a certeza de que aquele perfume também estaria ali. E estava.

Pensei que fosse fugir de mim novamente. Desta vez eu não permitiria. Por nada neste mundo eu a deixaria sumir outra vez sem saber porque fugiu sem explicação, deixando-me inundado de um amor tão profundo que acabei por afogar a minha vida inteira, tendo que transformar-me em muitos, tendo que proteger outras jovens por não ter podido proteger você. Eu me tornei um forasteiro em mim mesmo, pois aquele que habitava meu corpo não era mais o rapaz que a amava, que a ama, ama e ama.

Soube tudo que não sabia. Mas porque não me disse que, após o estupro naquele assalto (e eu não estava lá para socorrê-la. Como pôde aceitar carona de um completo estranho?...), ficou na dúvida se o filho que esperava era meu ou fruto da violência? Conhecia-me melhor que eu mesmo e não teve coragem de me falar que abortara uma criança que podia ser minha também. Num misto de desespero, vergonha, medo e amor, resolveu partir sem deixar rastros. Só Aquele Cheiro entranhado nas minhas narinas, memória, alma... E o seu nome, que eu não pronunciava há anos...

"Pra que mentir, fingir que perdoou
Tentar ficar amigos sem rancor
A emoção acabou
Que coincidência é o amor
A nossa música nunca mais tocou
Pra que usar de tanta educação
Pra destilar terceiras intenções
Desperdiçando meu mel
Devagarzinho, flor em flor
Entre os meus inimigos
Beija-Flor
Eu protegi seu nome por amor
Em um codinome Beija-Flor
Não responda, nunca, meu amor
Pra qualquer um na rua Beija-Flor
E só eu que podia
Dentro da sua orelha fria
Dizer segredos de liqüidificador
Você sonhava acordada
Um jeito de não sentir dor
Prendia o choro
E aguava o bom do amor
Prendia o choro
E aguava o bom do amor...
"

Quanto ódio, quanto rancor, quanta loucura por conta de um amor que jamais deixou de existir em mim. Agora estamos na Bahia, na nossa terra. Aqui, eu não sou um forasteiro. Aqui eu vou começar nova vida. Vou fazer tudo que deixei de fazer em todos estes anos. Agora o seu cheiro não me incomoda mais. Agora você não terá motivo para fugir de mim. Agora, jamais alguém te fará mal outra vez. Você não terá que passar por nada do que passou. E eu saberei, para sempre, que o nosso amor jamais acabará.

Agora que você já sabe de tudo que vivi entre o dia que você se foi e o que nós nos encontramos, pare de chorar. Você vai acabar se machucando, desse jeito! Lembra o que eu falei sobre a fita crepe? É inútil se debater. Confie em mim.

Eu te amo, querida!